Afundando em Nuvens
Thiago Corrêa
Que o talento de Scarlett Johansson vai além da sua beleza, disso poucos duvidam. Mas a habilidade que a atriz mostrou nos filmes “Moça com Brinco de Pérola” e “Match Point” não a acompanhou no campo musical. Em seu álbum de estréia “Anywhere I Lay My Head”, Scarlett Johansson canta como a sua inesquecível personagem Charlotte, de “Encontros e Desencontros”, brincando no videokê.
A atriz até mostra bom gosto, escolhendo David Andrew Sitek (guitarrista da TV on the Radio) para assumir a produção musical e selecionando um repertório baseado na obra de Tom Waits. A base instrumental, que conta com a participação de Nick Zinner (do Yeah Yeah Yeahs) e do multi-instrumentista Sean Antanaitis, chega a lembrar a trilha sonora que embalou a história de Charlotte no filme de Sofia Coppola.
Assim como na trilha, os arranjos de Sitek não possuem fronteiras. São como ressonâncias suaves, que aparentam ser contínuas, embora se dissolvam no ar. O som borrado da guitarra, piano e batidas eletrônicas criam, ao fundo, um ambiente de nuvens prestes a se desfazer. A sugestão dessa atmosfera de sonho fica evidente em “I Wish I Was in New Orleans”, que mais parece uma cantiga de ninar.
Apesar dos arranjos serem o ponto alto do disco, parece ter sido justamente isso que prejudicou a estréia da atriz no meio musical. Scarlett Johansson se levou a sério demais como cantora. A sofisticação instrumental é tanta, e ao mesmo tempo auto-suficiente, que a atriz não consegue acompanhá-los.
Sua voz destoa do resto da música, segue como um anexo, um monólito rígido que não consegue dialogar com os instrumentos, mas ainda assim querendo se impor. Uma lição que ela não aprendeu com seu convidado de luxo, David Bowie. O camaleão do rock faz uma discreta participação fazendo o backing vocal nas canções “Falling Down” e “Fannin’ Street”.
Exceções existem, claro. Em “Falling Down” e “I Don’t Want to Grown Up”, que já foi gravada pelo Ramones, surgem faíscas que iluminam um futuro menos nebuloso. Talvez um dia Scarlett alcance o nível da sua colega atriz/cantora Charlotte Gainsburg, responsável pelo delicado “5:55”. Por enquanto o que nos resta é fechar os olhos e recordar a personagem de “Encontros e Desencontros” se divertir com os amigos no videokê.