Posts Categorizados ‘rock

04
jun
08

Anywhere I Lay My Head – Scarlett Johansson

Afundando em Nuvens
Thiago Corrêa

Que o talento de Scarlett Johansson vai além da sua beleza, disso poucos duvidam. Mas a habilidade que a atriz mostrou nos filmes “Moça com Brinco de Pérola” e “Match Point” não a acompanhou no campo musical. Em seu álbum de estréia “Anywhere I Lay My Head”, Scarlett Johansson canta como a sua inesquecível personagem Charlotte, de “Encontros e Desencontros”, brincando no videokê.

A atriz até mostra bom gosto, escolhendo David Andrew Sitek (guitarrista da TV on the Radio) para assumir a produção musical e selecionando um repertório baseado na obra de Tom Waits. A base instrumental, que conta com a participação de Nick Zinner (do Yeah Yeah Yeahs) e do multi-instrumentista Sean Antanaitis, chega a lembrar a trilha sonora que embalou a história de Charlotte no filme de Sofia Coppola.

Assim como na trilha, os arranjos de Sitek não possuem fronteiras. São como ressonâncias suaves, que aparentam ser contínuas, embora se dissolvam no ar. O som borrado da guitarra, piano e batidas eletrônicas criam, ao fundo, um ambiente de nuvens prestes a se desfazer. A sugestão dessa atmosfera de sonho fica evidente em “I Wish I Was in New Orleans”, que mais parece uma cantiga de ninar.

Apesar dos arranjos serem o ponto alto do disco, parece ter sido justamente isso que prejudicou a estréia da atriz no meio musical. Scarlett Johansson se levou a sério demais como cantora. A sofisticação instrumental é tanta, e ao mesmo tempo auto-suficiente, que a atriz não consegue acompanhá-los.

Sua voz destoa do resto da música, segue como um anexo, um monólito rígido que não consegue dialogar com os instrumentos, mas ainda assim querendo se impor. Uma lição que ela não aprendeu com seu convidado de luxo, David Bowie. O camaleão do rock faz uma discreta participação fazendo o backing vocal nas canções “Falling Down” e “Fannin’ Street”.

Exceções existem, claro. Em “Falling Down” e “I Don’t Want to Grown Up”, que já foi gravada pelo Ramones, surgem faíscas que iluminam um futuro menos nebuloso. Talvez um dia Scarlett alcance o nível da sua colega atriz/cantora Charlotte Gainsburg, responsável pelo delicado “5:55”. Por enquanto o que nos resta é fechar os olhos e recordar a personagem de “Encontros e Desencontros” se divertir com os amigos no videokê.

26
mai
08

Nação Zumbi + Monobloco + MCs Júnior e Leonardo

Noite de tiro certeiro
Thiago Corrêa

O preço salgado do ingresso e a ameaça de chuva não impediram que o público fosse ao Cais do Porto conferir os shows da Nação Zumbi e do Monobloco, ainda com a participação dos MCs Júnior e Leonardo. A primeira edição do projeto Conexão Rio-Recife foi aberta pelo grupo pernambucano, já perto de meia-noite.

Com quase duas horas no palco, a Nação Zumbi fez um show coeso e eficiente. Como boa parte da platéia estava mais interessada no samba da Monobloco, os malungos souberam administrar a situação com seu repertório. O grupo alternou músicas do seu último disco, “Fome de Tudo”, com canções já conhecidas do público, como “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”, “Macô”, “Manguetown” e terminando com “Quando a Maré Encher”.

Depois de 45 minutos de espera, os cariocas do Monobloco subiram ao palco imprimindo um ritmo alucinante. Pegando a proposta do evento em fazer um intercâmbio cultural, a banda alternou seus sambas e versões de Jorge Ben Jor com músicas bem regionais. Logo no início, eles foram de forró, com “Isso Aqui Tá Bom Demais” e “Pagode Russo”, passando por Alceu Valença com “Morena Tropicana” e pelo frevo “Vassourinhas”.
 
Os MCs Júnior e Leornardo só vieram a público na volta da Monobloco, beirando às 4h da manhã. Junto com a banda de Pedro Luís, a dupla mandou ver “Endereço dos Bailes” e depois o seu “Rap das Armas”, que entrou na trilha do filme “Tropa de Elite” e mereceu bis.

O ponto negativo da noite ficou com a desorganização do estacionamento do Paço Alfândega, que deu dor de cabeça na saída. Além de permitir que os motoristas deixassem seus carros em local proibido, trancando outros veículos, havia apenas um atendente no caixa, formando uma longa fila.

15
mai
08

Combat Samba – Mundo Livre s/a

Mundo Livre s/a reúne seus sambas de trincheira
Thiago Corrêa

Com quase um quarto de século nas costas, a Mundo Livre s/a resultou fazer uma revisão da sua obra. A banda, uma das precursoras do Manguebeat, lança a primeira coletânea da carreira pelo selo Deckdisc. O álbum “Combat Samba: E se a Gente Seqüestrasse o trem das 11?” (com título inspirado em “Combat Rock” da The Clash), reúne músicas de todos os cinco discos do grupo, mais uma faixa do EP “Bebadogroove” e outra inédita.

A idéia de fazer uma compilação era desejo antigo da banda. Há três anos, a Mundo Livre s/a vinha planejando reunir alguns dos seus sucessos num único álbum, permitindo que os fãs mais jovens conhecessem suas primeiras músicas. A seleção das faixas ficou a cargo do produtor musical Carlos Eduardo Miranda, que já havia trabalhado com o grupo nos seus três discos iniciais.

O véinho, como é conhecido Miranda, escolheu um repertório que refletisse às várias fases da banda. Assim, foram selecionadas uma música do “Guentando a Ôia” (1996), duas de “Carnaval na Obra” ( 1998 ) e “O Outro Mundo de Manuela Rosário” (2004), três de “Por Pouco” (2000) e quatro do “Samba Esquema Noise” (1994), além das faixas “Carnaval Inesquecível na Cidade Alta”, de Bebadogroove, e da nova “Estela (A Fumaça do Pajé Miti Subitxxy)”, gravada no estúdio Muzak, em março.

Para compô-la, Fred Zero Quatro se inspirou no realismo fantástico, retomando a linha que marcou “O Outro Mundo de Manuela Rosário”. Na música, Zero Quatro cria histórias e personagens baseados no poder das grandes corporações internacionais.

Em tempos da disseminação dos frios downloads pela internet, “Combat Samba” chega às lojas com requintes de luxo. O belo projeto visual do álbum é assinado pela dupla Valentina Trajano e Jorge Du Peixe, que concorrem ao Prêmio Tim de Música 2008, pelo trabalho desenvolvido em “Fome de Tudo”, da Nação Zumbi. O encarte ainda traz, como atrativo, comentários de Zero Quatro em cada música. Neles, o líder da banda revela alguns segredos sobre o processo criativo que deu origem às canções.

14
mai
08

11 – Bryan Adams

O Zagallo do Canadá
Thiago Corrêa

Dejà vu é uma expressão usada pelos franceses para descrever àquela sensação de já termos vivenciado no passado um momento que acabamos de viver. Uma impressão que surge ao ouvir “11″, novo álbum do canadense Bryan Adams. O disco não chega a fazer feio, mas soa como os outros trabalhos do cantor.

As músicas funcionam em cima das mesmas engrenagens que fizeram o canadense ganhar fama internacional nas décadas de 80 e 90. Bryan Adams faz um rock datado, usando a mesma fórmula de criar baladas, combinando sua voz arranhada, com um tom romântico e uma guitarra posuda, que finge ser rebelde.

Aos 48 anos, Bryan Adams revela-se um tiozão do rock perto da quase cinqüentona Madonna, que se recria a cada disco lançado. Preso ao som que lhe garantiu participações nas trilhas dos filmes “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” (1991) e “Don Juan DeMarco” (1995), esse Paulo Ricardo do Canadá tem apelado até para a superstição.

Num surto semelhante ao do ex-técnico da seleção brasileira Zagallo, Bryan Adams criou fixação em relação ao número 11. Fez a turnê de lançamento do seu décimo primeiro álbum passando por 11 cidades, de 11 países diferentes em apenas 11 dias.

E como dejà vu na indústria fonográfica significa dinheiro fácil, é bem capaz da mandinga do canadense dar certo. Não será estranho se algumas músicas de “11″, como “I Though I’d Seen Everything” ou qualquer outra (já que todas se parecem), tornem-se sucessos radiofônicos. Apelo para ser tocada na mesmice que paira nas ondas das nossas FMs, elas têm.

12
mai
08

Consoler of the Lonely – The Raconteurs

Mais uma preciosidade com o toque de Jack White
Thiago Corrêa

Jack White é uma espécie de rei Midas do rock and roll. Assim como o personagem da mitologia grega, tudo vira ouro onde o músico põe o dedo. Não bastassem os seis preciosos álbuns do The White Stripes, Jack White vem construindo uma sólida trajetória com o The Raconteurs, seu projeto paralelo ao lado de Brendan Benson, Jack Lawrence e Patrick Keeler. “Consoler of the Lonely”, trabalho mais recente da banda, dá conta do recado e segura a expectativa criada pelo ótimo disco de estréia “Broken Boy Soldier”, lançado em 2006.

O grupo mostra maturidade com as músicas “The Switch and the Spur” e “Rich Kid Blues”. Nelas, o The Raconteurs experimenta uma variação de sonoridades, lembrando o The Who ao combinar climas diferentes dentro das mesmas faixas. “The Switch and the Spur” começa com uma introdução pomposa, puxada por um piano e seguida pelo sopro dos metais, que dão um tom de drama mexicano. A música mescla um ambiente intrigante criado pelo baixo de Lawrence, com passagens instrumentais e um vocal narrativo.

Em “Rich Kid Blues”, a semelhança com o The Who é ainda maior. Seu início a base de voz e violão é interrompido por guitarras e batidas, que surgem em degraus, e logo se desfazem, retornando à levada inicial. Apesar da diversidade rítmica existir apenas em “The Switch and the Spur” e “Rich Kid Blues”, elas resumem o espírito de todo o disco.

O álbum é organizado num jogo de clímax e anti-clímax, alternando baladas com faixas mais pesadas, que remetem ao The White Stripes. Muito dessa semelhança deve-se à voz estridente de Jack White, como nos casos de “Salute Your Solution”, “Top Yourself”, “Five on the Five” e da faixa-título “Consoler of the Lonely”.

A sombra do The White Stripes, porém, não compromete o resultado. O The Raconteurs impõe seu estilo próprio apresentado no primeiro disco. Seja fazendo um rock competente nas faixas “Hold Up” e “Attention”, ou mesmo nas mais lentas “Old Enough”, “Many Shades of Black” e “These Stones Will Shout”.

06
mai
08

Shine a Light – Rolling Stones

Luz, câmera e rock ‘n’roll
Thiago Corrêa

Quem perdeu a chance de assistir no cinema ao show do Rolling Stones, registrado pelo diretor Martin Scorcese no filme “Shine a Light”, e não quer esperar o lançamento do DVD, pode conferir o resultado da apresentação no CD. Apesar de não contar com as danças de Mick Jagger, a tranqüilidade eficiente de Charlie Watts na bateria e as dobradinhas de Keith Richards e Ron Wood nas guitarras, o disco duplo preserva o ânimo que a banda imprimiu no palco do Beacon Theatre, em Nova Iorque.

Com quase 46 anos de carreira e uma infinidade de coletâneas na bagagem, o Rolling Stones soube selecionar um repertório que saísse do óbvio. A banda optou em mesclar músicas menos conhecidas, que deram um sopro de renovação aos dinossauros do rock, com as obrigatórias “Sympathy for the Devil”, “Star Me Up”, “Brown Sugar” e “(I Can’t Get No) Satisfaction”, usadas já na segunda metade do show.

Por se tratar de uma apresentação num local de pequenas proporções, os Stones não precisaram se preocupar em não incendiar uma multidão e escolheram uma seqüência de músicas instigadas, que começa logo com o sucesso “Jumping Jack Flash”. Na seqüência, as guitarras de Ron Wood e Keith Richards assumem o comando em “Shattered” e seguem em ritmo frenético.

As únicas pausas que o grupo dá para a platéia recuperar o fôlego é com a belíssima “As Tears Go By”, executada no melhor estilo banquinho e violão, e “Faraway Eyes”, com o dueto vocal de Jagger e Richards. O guitarrista ainda assume os vocais na sombria “You Got the Silver” e em “Connection”, que não aparecem na íntegra no filme.

O disco ainda registra as ótimas participações especiais do líder do The White Stripes, Jack White, do blueseiro Buddy Guy e de Christina Aguilera, com seu poderia vocal. A presença da cantora, no entanto, é o único caso onde a imagem realmente faz falta. Não ver Christina Aguilera se esfregando em Mick Jagger é frustrante.

01
mai
08

Accelerate – R.E.M

Acelera!
Thiago Corrêa

Uma das melhores cenas do filme “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, de Tim Burton, é quando o personagem de Ewan McGregor descreve quando viu a sua futura esposa pela primeira vez. O mundo pára, entra no modo câmera lenta, mas logo em seguida, como que para se recuperar do atraso, o tempo adota um ritmo acelerado. A cena serve como metáfora para explicar o momento da banda americana R.E.M. Depois do singelo, embora apático, “Around the Sun” (2004), o grupo retoma o tempo perdido em “Accelerate”.

Em pouco mais de três minutos, Michael Stipe e companhia mostram que estão com o fôlego renovado. O R.E.M deixa a penumbra de “Around the Sun”, que vendeu apenas 240 mil cópias nos Estados Unidos, e retoma seu lado rock and roll. O disco começa logo com as rajadas de guitarra de “Living Well Is the Best Revenge”, que muito lembram a fase “Monster”, disco lançado em 1994. Para acompanhar o ritmo do guitarrista Peter Buck, Stipe volta a usar sua rapidez discursiva que se tornou famosa com o hit “It’s the End Of the World As We Know It”.

O álbum segue com guitarras agressivas de Buck, que também norteiam “Man-Sized Wreath” e a faixa-título “Accelarate”, somando-se ainda ao tom desafiador da voz de Stipe em “Horse to Water” e “I’m Gonna DJ”. Esses momentos são alternados com o lirismo das letras de Stipe na intrigante “Houston”, na melancólica “Until the Day Is Done” e na claustrofóbica “Sing For the Submarine”, que possui uma passagem sombria construída com o som da guitarra e da bateria.

As duas tendências se aliam em “Mr. Richards”, “Hollow Man” e “Supernatural Superserious”, o ápice do disco. Não por acaso ela foi a música escolhida para divulgar o disco. Com clipe já circulando na MTV, “Supernatural Superserious” resume o espírito do álbum e reúne os principais ingredientes do R.E.M. A música já nasce grandiosa com a guitarra de Buck e a voz instigante de Stipe que, suavizado pelo backing vocal, desemboca num refrão que nos obriga a cantar junto.




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