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02
jun
08

Alegria – Beatriz Azevedo

Devoradora de Divas
Thiago Corrêa

Numa época onde fazer pose de diva tem garantido destaque, o nome de Beatriz Azevedo vem correndo por fora desse circuito. A cantora, com sua voz que destoa do padrão MPB, mostra um jazz inventivo e delicado no seu último disco. Lançado pelo selo Biscoito Fino, “Alegria” desafia ouvidos, motiva sentimentos e resulta em sorrisos de satisfação nas suas 12 faixas.

O disco conta com a participação de Vinicius Cantuária e Tom Zé, que emprestam seus talentos nas canções “Alegria” e “Pelo Buraco”, respectivamente. A música que dá nome ao disco é um sambinha com o dueto de Beatriz e Cantuária, mostrando uma serenidade no jeito de cantar que lembra Chico Buarque. A tuba tem lugar de destaque na canção, dando um tom cômico.

A sugestão de humor também está presente em “Pelo Buraco”. Nela, Tom Zé parece encarnar um irônico personagem de Woody Allen, com Beatriz no backing vocal. Os instrumentos sugerem um clima de humor pastelão, fazendo um som imprevisível. O arranjo cresce num padrão, subindo em degraus, mas surge uma quebra, e o ritmo declina de repente, como numa comédia.

A afinidade de Beatriz com a poesia rende bons frutos. Para o disco, além de uma expressão de Hilda Hist usada na música “Sem Fronteiras”, a cantora musicou o poema “Coco de Pagu”, de Raul Boop, e “Relicário”, de Oswald de Andrade, transformando essa última faixa em marchinha de carnaval.

Do poeta modernista, ela ainda usa suas idéias antropofágicas. No encarte, todas as letras são acompanhadas de comentários da cantora, revelando que fontes ela devorou. Mostrando que não é apenas uma boa leitora, Beatriz criou “Circo”. A bela letra usa a metáfora de coração iô-iô para falar de sofrimento, que vem envolto num jazz soturno, com bateria leve, sax e piano.

21
mai
08

Irreversíveis – Irreversíveis

Irreversíveis, mas com jeito
Thiago Corrêa

Ser pretensioso é imprescindível para se fazer arte. A música – ou qualquer outra forma de expressão artística – deve questionar, estimular a reflexão, provocar debates e emoções. Trazer elementos novos para re-significar o que se tornou velho. A questão, porém, é saber dominar esse ímpeto, traduzindo-o em algo simples, fazendo as pretensões soarem com naturalidade. Algo que Carol Monte e Leo Benitez, sob a alcunha Irreversíveis, ainda não souberam equilibrar no seu segundo álbum, que recebeu o nome da dupla e sai pelo selo Som Livre Apresenta.

A proposta da dupla é boa. Eles misturam elementos eletrônicos com rock e country, constroem uma sonoridade criativa, incomum, um tanto caótica, mas onde os fragmentos se complementam e faz sentido no final. A melodia parece se organizar a partir da voz contida de Leo Benitez, ganhando uma forma romântica nas letras sobre relacionamentos, como em “Boa Sorte”.

Mas há momentos em que esse fio condutor não funciona. A dupla se perde no labirinto de suas possibilidades sonoras, atirando no escuro com as falas pausadas de Benitez e sem encontrar ressonância nos ouvintes. Algo que fica muito claro em “Aquecimento Global”, um Frankenstein com batidas da dance music e vocais melancólicos inspirados na Bossa Nova, ou na pretensiosa “O Filho que Eu Queria”.

Uma derrapada que não tira os méritos do Irreversíveis. O disco tem seus pontos positivos. É impressionante como o som da banda cresce quando a dupla resolve deixar de se levar a sério e passa a brincar com suas referências. As músicas ganham um tom mais orgânico nas singelas “Pra Ficar com Você” e “Tudo que Eu Queria” ou nas divertidas “Musa Clássica” e “Dois Irreversíveis”. Esta, sem dúvida, a pérola do álbum.

12
mai
08

Show: Nós4 + Maria Rita

Maria Rita em boa forma
Thiago Corrêa

Numa semana em que não faltaram shows de grandes nomes da Música Popular Brasileira na cidade, conseguir atrair público é uma demonstração de força. Ainda mais quando se trata de uma noite chuvosa como a da última sexta-feira. O Chevrolet Hall não chegou a lotar, mas a cantora Maria Rita passou no teste de popularidade. Para um público de quase duas mil pessoas, ela provou porque em seis anos de carreira já integra o time de divas da MPB.

Mas, calma, antes disso teve a apresentação da banda pernambucana Nós4. O grupo cumpriu o papel que se espera de uma banda cover. Mesclando músicas de Chico Buarque, Gilberto Gil, Lenine, Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Chico Science e Bob Marley; arrumou um repertório de sucessos compatíveis com a atração principal e segurou a ansiedade do público por cerca de uma hora e meia.

O esforço da Nós4, no entanto, foi por água a baixo nos 35 minutos de intervalo entre um show e outro. A casa de espetáculos aproveitou e passou a exibir nos dois telões as lamúrias torturantes de Zeca Baleiro e Fagner, que se apresenta no local no próximo dia 22.

Apesar da depressão coletiva causada, o anticlímax casou perfeitamente com o início do show de Maria Rita. Ela anunciou sua presença no palco com os versos “O meu samba vai curar teu abandono / O meu samba vai te acordar do sono”, de “Samba Meu”, título do disco que ela apresentava pela primeira vez no Recife.

Cumprindo a promessa, Maria Rita embalou uma série de 19 músicas que fizeram o público sambar. A segunda canção foi “Tá Perdoado”, tema da novela “Duas Caras”, e na seqüência mandou “Maria do Socorro”. Ovacionada, a cantora fez o primeiro contato com a platéia, agradecendo o carinho e apresentando a ótima banda formada por Jota Moraes (piano), Sylvinho Mazzuca (baixo acústico), Tuca Alves (violão), Camilo Mariano (bateria), Márcio Almeida (cavaquinho), Neni Brown e Miudinho (percussão).

Com pleno domínio de palco, ela mostrou que seu talento não se restringe ao controle da voz. Exibindo uma bela forma física (com direito a gingas sensuais, barriguinha de fora e, depois, um vestido prata justinho), a cantora usou o poder de diva e hipnotizou os fãs, fazendo-os cantar junto e aplaudir qualquer gesto seu. A empolgação de Maria Rita com o público foi tanta, que, em alguns momentos, ela incorporou o espírito de Ivete Sangalo gesticulando para que o público levantasse os braços e batessem palmas.

Depois de uma hora e quinze de show, a tradicional pausa. A cantora voltou para o bis repetindo as músicas “Maria do Socorro”, “Cara Valente”, “Num Corpo Só”. Para terminar, mandou um recado com “Não Deixe o Samba Morrer”.




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