Devoradora de Divas
Thiago Corrêa
Numa época onde fazer pose de diva tem garantido destaque, o nome de Beatriz Azevedo vem correndo por fora desse circuito. A cantora, com sua voz que destoa do padrão MPB, mostra um jazz inventivo e delicado no seu último disco. Lançado pelo selo Biscoito Fino, “Alegria” desafia ouvidos, motiva sentimentos e resulta em sorrisos de satisfação nas suas 12 faixas.
O disco conta com a participação de Vinicius Cantuária e Tom Zé, que emprestam seus talentos nas canções “Alegria” e “Pelo Buraco”, respectivamente. A música que dá nome ao disco é um sambinha com o dueto de Beatriz e Cantuária, mostrando uma serenidade no jeito de cantar que lembra Chico Buarque. A tuba tem lugar de destaque na canção, dando um tom cômico.
A sugestão de humor também está presente em “Pelo Buraco”. Nela, Tom Zé parece encarnar um irônico personagem de Woody Allen, com Beatriz no backing vocal. Os instrumentos sugerem um clima de humor pastelão, fazendo um som imprevisível. O arranjo cresce num padrão, subindo em degraus, mas surge uma quebra, e o ritmo declina de repente, como numa comédia.
A afinidade de Beatriz com a poesia rende bons frutos. Para o disco, além de uma expressão de Hilda Hist usada na música “Sem Fronteiras”, a cantora musicou o poema “Coco de Pagu”, de Raul Boop, e “Relicário”, de Oswald de Andrade, transformando essa última faixa em marchinha de carnaval.
Do poeta modernista, ela ainda usa suas idéias antropofágicas. No encarte, todas as letras são acompanhadas de comentários da cantora, revelando que fontes ela devorou. Mostrando que não é apenas uma boa leitora, Beatriz criou “Circo”. A bela letra usa a metáfora de coração iô-iô para falar de sofrimento, que vem envolto num jazz soturno, com bateria leve, sax e piano.
