Irreversíveis, mas com jeito
Thiago Corrêa
Ser pretensioso é imprescindível para se fazer arte. A música – ou qualquer outra forma de expressão artística – deve questionar, estimular a reflexão, provocar debates e emoções. Trazer elementos novos para re-significar o que se tornou velho. A questão, porém, é saber dominar esse ímpeto, traduzindo-o em algo simples, fazendo as pretensões soarem com naturalidade. Algo que Carol Monte e Leo Benitez, sob a alcunha Irreversíveis, ainda não souberam equilibrar no seu segundo álbum, que recebeu o nome da dupla e sai pelo selo Som Livre Apresenta.
A proposta da dupla é boa. Eles misturam elementos eletrônicos com rock e country, constroem uma sonoridade criativa, incomum, um tanto caótica, mas onde os fragmentos se complementam e faz sentido no final. A melodia parece se organizar a partir da voz contida de Leo Benitez, ganhando uma forma romântica nas letras sobre relacionamentos, como em “Boa Sorte”.
Mas há momentos em que esse fio condutor não funciona. A dupla se perde no labirinto de suas possibilidades sonoras, atirando no escuro com as falas pausadas de Benitez e sem encontrar ressonância nos ouvintes. Algo que fica muito claro em “Aquecimento Global”, um Frankenstein com batidas da dance music e vocais melancólicos inspirados na Bossa Nova, ou na pretensiosa “O Filho que Eu Queria”.
Uma derrapada que não tira os méritos do Irreversíveis. O disco tem seus pontos positivos. É impressionante como o som da banda cresce quando a dupla resolve deixar de se levar a sério e passa a brincar com suas referências. As músicas ganham um tom mais orgânico nas singelas “Pra Ficar com Você” e “Tudo que Eu Queria” ou nas divertidas “Musa Clássica” e “Dois Irreversíveis”. Esta, sem dúvida, a pérola do álbum.