Posts Categorizados ‘Fundarpe

11
jul
10

Cuba | Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música

Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Nem as diferenças de idioma nem as 7 horas e meia de viagem entre Recife e Santiago de Cuba foram capazes de distanciar o Alto José do Pinho com a comunidade de Portuondo. Em comum, os dois lugares carregam o peso de serem periferia e possuem artistas que usam a música como um instrumento de transformação social. A semelhança das histórias desses bairros fez o grupo TNT La Resistência se aproximar dos responsáveis pela experiência positiva na comunidade pernambucana.

Se em 2008 os rappers da TNT aproveitaram a passagem pelo Recife para visitar o Alto José do Pinho, na última quinta-feira foi a vez Zé Brown e Cannibal retribuírem a atenção indo a Portuondo. Os dois conheceram onde vivem os artistas santiagueiros, foram apresentados a seus familiares e viram aceitação que o trio de hip hop tem na comunidade ao fazer um show no meio da rua mesmo.

“O que me deixa feliz é ver eles realizarem as coisas. Apesar da precariedade de equipamento, eles são muito esforçados”, observa Zé Brown. “É o meu espelho, porque no início era complicado. A gente não tinha case e precisava ter o maior cuidado do mundo para não estragar os instrumentos no ônibus. Qualquer batidinha lascava tudo”, completa o rapper pernambucano.

Com todas essas identificações, o reencontro não podia deixar de passar pelo campo da música. A exemplo do que ocorreu no Recife, quando a TNT participou de uma faixa gravada pelo DJ Big, o encontro em Cuba também vai render frutos musicais. Na manhã de sexta-feira, os integrantes do grupo cubano se reuniram com Zé Brown, Josildo Sá, Cannibal e DJ Beto no estúdio Egrem (onde foram gravadas cenas do documentário Buena Vista Social Club) para gravarem duas faixas. As músicas vão integrar uma coletânea a ser lançada pela Fundarpe com artistas cubanos e a delegação pernambucana.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

09
jul
10

Cuba | Dificuldades da produção revelam carências da ilha

Dificuldades da produção revelam carências da ilha
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Num país onde o horário dos voos depende da boa vontade da tripulação de bordo e o acesso à caixa de e-mail é uma conquista, possibilitar a realização de mais de 51 shows, mais dois desfiles e um espetáculo de gala tem sido uma verdadeira odisseia para a equipe de produção da Fundarpe. Os dez profissionais que vieram do Recife têm enfrentado uma série de dificuldades para permitir que os artistas pernambucanos consigam pelo menos o mínimo de infra-estrutura em suas apresentações. Os obstáculos vem desde a carência de recursos materiais até a cultura de improviso que se desenvolveu no Festival do Caribe.

Como a programação dos palcos só possui a marcação do horário de início das atividades e muitas atrações são inseridas de última hora, as bandas de Pernambuco estão condenadas a horas de espera no local dos shows porque simplesmente não sabem quando vão poder subir ao palco. E considerando a maratona de sete apresentações em média de cada atração durante os sete dias de festival, a desorganização acaba gerando desgaste físico. Para contornar o problema, a equipe da Fundarpe até tentou se articular com os organizadores do festival para só levar os artistas na hora de entrar em cena, mas não deu certo.

No último domingo, o grupo Bongar foi aconselhado a chegar uma hora antes na Plaza Ferreiro, onde se apresentaria, porém precisou aguardar três horas nas calçadas para começar a tocar. E o pior, quando finalmente entraram em cena, os integrantes perceberam que os equipamentos de palco não seria o suficiente. “Pedimos 15 microfones e eles disseram que tinham microfones para uma orquestra, mas quando chegamos lá só tinham sete. Não tinha como fazer o show porque era um espaço aberto. Existem dificuldades técnicas que não tem condições de fazer”, disse a produtora do Bongar, Marileide Alves.

Apesar de todas essas dificuldades, o Bongar subiu ao palco e tentou fazer o que podia. “Foi um show de 15 minutos, só que a galera gostou tanto que pediu para a banda tocar mais”, conta a produtora. “Aqui a gente tem que entrar na onda deles, colocar o som mais baixo e fazer com o que tem, porque a situação é precária. Lembra muito o nosso começo, a gente já chegou a tocar usando caixa de som de radiola”, compara Cannibal, vocalista da Devotos que está fazendo participações nos show de Zé Brown.

A carência cubana vai além de equipamentos técnicos, também passa por questões mais básicas como a falta de pregos e garrafas d’água em grande quantidade. “A gente está tendo que adaptar as oficinas, porque aqui eles não têm coisas básicas como massa corrida e acabam usando graxa e azeite. Quando fomos fazer uma ação de grafitagem, descobrimos que, como não existe spray por aqui, eles usam pincel”, relata Luis Eduardo Pinheiro, responsável pelas oficinas. Outro fato que revela as deficiências da sociedade cubana e tem atrapalhado a equipe da Fundarpe é com relação à comunicação. “É um problema porque usar rádio aqui é proibido, então teríamos que comprar celulares para todos da equipe e isso seria inviável”, conta Pinheiro.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

07
jul
10

Cuba | Pernambuco coloca o bloco na rua em plena Santiago

Pernambuco coloca o bloco na rua em plena Santiago
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – No dia em que Santiago de Cuba sofreu um abalo sísmico de 4.7 graus na escala Richter, a segunda cidade mais importante da ilha de Fidel Castro conheceu mais de perto a cultura pernambucana. Sem a restrição ao acesso à Casa de Pernambuco, aberta somente para convidados da organização do Festival do Caribe, os cubanos tiveram a oportunidade de conferir uma amostra da diversidade cultural do estado nordestino durante o Desfile de la Serpiente.

Em plena segunda-feira, o centro de Santiago de Cuba parou para assistir ao desfile das delegações que participam do Festival do Caribe. Fechando o cortejo (após a participação de Cuba, Argentina, México, Jamaica e Curaçao), sete agremiações pernambucanas aproveitaram o trajeto entre a Plaza de Marte e o Parque Céspedes se apresentaram no corpo-a-corpo à população cubana, num fim de tarde que lembrou e muito o período de carnaval.

A lembrança veio por conta das semelhanças entre as ruas estreitas de Santiago com as de Olinda, como também pela presença de ícones da festa popular pernambucana e pela proximidade com a celebração do carnaval cubano, comemorado a partir do dia 21 de julho. Mas como um país disciplinado pelo regime socialista que ainda traz mensagens pregando a união para superar as dificuldades pintadas em seus muros, a interação não ultrapassou a contemplação.

A população cubana assistiu – ordenadamente concentrada na beira das calçadas, nas janelas e sacadas das casas – o poder dos tambores do Maracatu Leão Coroado, viu com curiosidade os caboclos-de-lança do Maracatu Piaba de Ouro, os passos dos caboclinhos do 7 Flexas, admirou o frevo e as fantasias do bloco O Bonde e reconheceu semelhanças da religiosidade da ilha com os símbolos e o ritmo apresentado pelos afoxés Alafin Oyo e Oya Alaxe.

Até como uma forma de chamar a atenção das várias crianças que se amontoaram pelas calçadas da rua Aguilera, o desfile se encerrou com duas das bandas mais representativas da  música contemporânea pernambucana: a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério com as mungangas do Maestro Forró e o grupo Bongar, que mostrou ser tão enérgico no chão quanto no palco.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

06
jul
10

Cuba | Frutos cubanos na música pernambucana

Frutos cubanos na música pernambucana
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Conhecido pela sua pluralidade musical, o estado de Pernambuco deve ampliar ainda mais os seus horizontes. A delegação estadual de 162 pessoas que veio participar da 30a. edição do Festival do Caribe tem aproveitado a estada em solo cubano para conhecer sons, ritmos e artistas que dificilmente chegam aos seus ouvidos no Recife. Com a oportunidade de conferir apresentações culturais de paises como México, Haiti, Argentina, Cuba, Curaçao e Jamaica durante uma semana em 28 pontos da cidade de Santiago de Cuba, os artistas pernambucanos tem procurado observar e absorver essa experiência em seus trabalhos autorais.

Quem já está avançando nesse sentido é a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH). Para o seu segundo disco, que deve começar a ser gravado neste segundo semestre, o grupo planeja convidar um DJ cubano para participar do próximo álbum. “Vamos fazer uma faixa que vai condensar todas as músicas do disco e entregar para um DJ fazer um remix”, adianta o Maestro Forró, comandante da orquestra.

Além disso, ele revela que a sonoridade da OPBH não deve ficar imune ao acesso de tantas referências que os integrantes da banda estão tendo acesso. “Festivais como esse são uma oportunidade para colocar em prática a globalização real. O Festival do Caribe está linkado com a proposta da gente, de primeiro conhecer para depois misturar as linguagens. A gente está sempre transformando as coisas e essas viagens são como oportunidades de gerar mais diversidade para a nossa cultura”, explica Forró.

Outro grupo que está se valendo do Festival do Caribe para criar material novo é o grupo Fim de Feira. “Já comecei a compor baseado nessa experiência. Aqui é tudo muito diferente, é como se a gente saísse de uma romance de Gabriel Garcia Marquez”, diz o vocalista Bruno Lins. Mas ele acredita que o mais importante dessa experiência ultrapassa as questões estéticas e atinge o nível da relação das pessoas com a arte. “Não é só uma questão de influência musical, tem uma coisa antropológica mesmo. Porque aqui a música é questão de sobrevivência para os cubanos. Indepente do regime político deles, religião e mesmo das condições dos equipamentos, a gente vê que eles estão se divertindo enquanto tocam”, observa Bruno.

Uma relação que também parece ter efeito entre os outros integrantes da delegação estadual. Reunidos no Hotel Balcón do Caribe, os artistas pernambucanos têm interagido e se mostrado abertos na construção de novas parcerias. Algo que já era possível observar ainda no salão de embarque no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, quando o rapper Zé Brown sacou o pandeiro e começou uma roda de embolada com a participação de músicos da OPBH e Cannibal, da Devotos. “Estamos juntos no mesmo hotel e as coisas vão surgindo, tudo é uma grande brincadeira e a música”, conta o forrozeiro Josildo Sá, que fez participações nas apresentações da Fim de Feira e de Zé Brown.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

05
jul
10

Cuba | Cultura como resistência num país em extinção

Cultura como resistência num país em extinção
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Cuba é um país em extinção. A cidade de Santiago de Cuba, berço da Revolução Cubana, exibe sinais de que em breve será engolida pelo capitalismo. Aos pés da Sierra Maestra, cartões postais com Fidel Castro, automóveis da década de 1950, mensagens revolucionárias e imagens de Che Guevara pintadas nos muros da cidade convivem com latas de Coca-Cola e frotas de carros novos de marcas européias e asiáticas comuns a qualquer grande cidade do mundo. Até como uma forma de se precaver da sede dos cubanos por bens de consumo, a cultura aqui é vista e trabalhada como uma questão de resistência, de reafirmação da identidade de um povo.

Uma característica que vem sendo construída desde 1981 através do surgimento do Festival do Caribe. O evento, cuja 30a edição começou no último sábado, tem executado seu objetivo não através de um sistema fechado feito a economia da ilha, mas se abrindo ao novo para reforçar os laços com culturas tão diferentes quanto próximas. Uma predisposição ao diálogo que se revelou logo no primeiro dia do festival, quando artistas de Curaçao dividiram o palco do Teatro Heredia com músicos e bailarinos cubanos na cerimônia de abertura do evento (gerando uma profusão de ritmos estranhos aos ouvidos de um brasileiro, embora aqui e ali pudéssemos identificar semelhanças com percussivas e referências da nossa capoeira).

Algo que também apareceu no discurso oficial, no momento em que o diretor da Casa do Caribe, Orlando Vergés Martínez, ressaltou a importância de ter Curaçao e o estado de Pernambuco como homenageados da edição deste ano. “Quando fui a Pernambuco, percebi que o Nordeste era muito diferente daquele que vemos nas novelas brasileiras. A cultura pernambucana é muito diversificada e tem muitas semelhanças com a cultura cubana”, discursou Martínez.

Intersecções estas que ficaram evidentes nas apresentações da banda cubana Steel Band, que usa latas de metal como instrumento. Após duas passagens pelo estado, o grupo percussivo mostrou na saída do Teatro Heredia e na abertura da Casa de Pernambuco que incorporou ao seu repertório os frevos Cabelo de Fogo e Hino do Elefante de Olinda, marcando a frutífera relação com o Maestro Forró, responsável pela adaptação dos arranjos.

Casa de Pernambuco – Um casarão de 1 mil metros quadrados na Avenida Manduley será, até o dia 9 de julho, a Casa de Pernambuco. O local abriga a sede institucional do Governo, trazendo exposições fotográfica, de artesanato e um palco por onde vão passar artistas cubanos e todos os grupos que integram a delegação  pernambucana. Na noite de abertura, além da Steel Band, também se apresentaram os caboclinhos 7 Flexas e Canindé do Recife, os maracatus Leão Coroado e Piaba de Ouro e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

TV Viva
Quem não teve a oportunidade de ser uma dos cerca de 150 integrantes da delegação pernambucana à Santiago de Cuba, vai poder acompanhar cada detalhe da participação pela televisão. Uma equipe da TV Viva está registrando tudo, desde a espera na sala de embarque no Aeroporto Internacional dos Guararapes, aos shows que estão acontecendo na  Casa de Pernambuco. O material colhido vai se transformar num programa de televisão que deve ser exibido na TV Pernambuco e na TV Universitária, além de servir para incrementar o documentário Pernamcubanos.

Homenagem
O videasta Nilton Pereira, da TV Viva, recebeu o Prêmio Internacional Casa do Caribe pelo esforço em aproximar a cultura pernambucana com a cubana. Antes dele, a curandeira conhecida como Berta, la pregoneira já havia recebido a condecoração nesta edição do evento. Moradora de Santiago de Cuba, ela virou uma personagem tradicional da cidade por vender produtos medicinais com roupas exóticas que lembram a brasileira Carmem Miranda. “Berta é muito mais do que uma imagem pitoresca, ela é a própria tradição da continuidade cultural do Caribe”, classificou os organizadores do Festival.

Acidente
Nem tudo foi alegria na abertura da Casa de Pernambuco. Durante a apresentação corpo-a-corpo da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, na noite do sábado, uma grade de ferro que tampava um fosso cedeu e fez um homem cair. Apesar do susto e da altura, a vítima foi rapidamente socorrida com um corte no braço direito e foi levada às autoridades médicas.

03
jul
10

Cuba | Pernambuco invade a ilha de Fidel

Thiago Corrêa

Uma delegação com cerca de 150 pessoas embarcou, na tarde de ontem no Recife, num vôo fretado rumo a Santiago de Cuba. O grupo – composto por músicos, artesões, cineastas, bailarinos, artistas populares, pesquisadores e gestores culturais – participa a partir de hoje da 30ª edição do Festival do Caribe, que este ano traz como homenageados Curaçao e o estado de Pernambuco. Eles terão a missão de representar a diversidade da cultura pernambucana realizando apresentações musicais, palestras, oficinas, mostra de filmes, exposições de fotografia e de artesanato.

Para tanto, foram convocados desde grupos tradicionais (como o Maracatu Leão Coroado e o Piaba de Ouro, o Cavalo Marinho Boi Pintado de Aliança, o Caboclinho 7 Flechas e o Canindé do Recife e os afoxés Oyá Alaxé e Alafin Oyó) a bandas que ultrapassam o rótulo da cultura popular. Nesse campo, estão bandas como o Bongar e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, o rapper Zé Brown e o grupo de forró Fim de Feira, que se apresenta em terras caribenhas numa parceria com Josildo Sá.

“O que a gente tentou fazer foi escolher as atrações de acordo com a cara do festival, que é voltado para a cultura popular e mais concentrado na parte musical e na questão da religiosidade”, explica o jornalista Rodrigo Coutinho, um dos responsáveis pela coordenação da Fundarpe na elaboração da programação pernambucana no festival. Segundo ele, outra preocupação foi explorar o viés de pesquisa do evento e destacar o modelo de gestão da política cultural implementado pelo estado, através dos Pontos de Cultura.

“Pesquisador do mundo inteiro vai lá para entender as manifestações populares, as pessoas querem viver aquela experiência. Então tivemos o cuidado de não fazer uma programação só para exaltar o artista, mas escolher pessoas que tivessem conteúdo de verdade, capaz de explicar o processo do que estão fazendo”, completa ele. De olho nos interesses do público, a programação pernambucana em Cuba envolve apresentações de bandas locais em diversas partes de Santiago e terá como sede a Casa de Pernambuco, que abre oficialmente às 20h de hoje.

Histórico - A relação dos pernambucanos com o evento é antiga, vem desde 1997, quando o estado integrou a delegação brasileira no ano em que o Brasil fora o homenageado. O contato foi retomado em 2008 e os preparativos para a homenagem vêm sendo gestado desde então. Ano passado uma equipe da Fundarpe foi à ilha caribenha para observar o funcionamento do festival e procurar entender o que poderia se encaixar melhor na programação do evento.




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