Cultura como resistência num país em extinção
Thiago Corrêa*
SANTIAGO DE CUBA – Cuba é um país em extinção. A cidade de Santiago de Cuba, berço da Revolução Cubana, exibe sinais de que em breve será engolida pelo capitalismo. Aos pés da Sierra Maestra, cartões postais com Fidel Castro, automóveis da década de 1950, mensagens revolucionárias e imagens de Che Guevara pintadas nos muros da cidade convivem com latas de Coca-Cola e frotas de carros novos de marcas européias e asiáticas comuns a qualquer grande cidade do mundo. Até como uma forma de se precaver da sede dos cubanos por bens de consumo, a cultura aqui é vista e trabalhada como uma questão de resistência, de reafirmação da identidade de um povo.
Uma característica que vem sendo construída desde 1981 através do surgimento do Festival do Caribe. O evento, cuja 30a edição começou no último sábado, tem executado seu objetivo não através de um sistema fechado feito a economia da ilha, mas se abrindo ao novo para reforçar os laços com culturas tão diferentes quanto próximas. Uma predisposição ao diálogo que se revelou logo no primeiro dia do festival, quando artistas de Curaçao dividiram o palco do Teatro Heredia com músicos e bailarinos cubanos na cerimônia de abertura do evento (gerando uma profusão de ritmos estranhos aos ouvidos de um brasileiro, embora aqui e ali pudéssemos identificar semelhanças com percussivas e referências da nossa capoeira).
Algo que também apareceu no discurso oficial, no momento em que o diretor da Casa do Caribe, Orlando Vergés Martínez, ressaltou a importância de ter Curaçao e o estado de Pernambuco como homenageados da edição deste ano. “Quando fui a Pernambuco, percebi que o Nordeste era muito diferente daquele que vemos nas novelas brasileiras. A cultura pernambucana é muito diversificada e tem muitas semelhanças com a cultura cubana”, discursou Martínez.
Intersecções estas que ficaram evidentes nas apresentações da banda cubana Steel Band, que usa latas de metal como instrumento. Após duas passagens pelo estado, o grupo percussivo mostrou na saída do Teatro Heredia e na abertura da Casa de Pernambuco que incorporou ao seu repertório os frevos Cabelo de Fogo e Hino do Elefante de Olinda, marcando a frutífera relação com o Maestro Forró, responsável pela adaptação dos arranjos.
Casa de Pernambuco – Um casarão de 1 mil metros quadrados na Avenida Manduley será, até o dia 9 de julho, a Casa de Pernambuco. O local abriga a sede institucional do Governo, trazendo exposições fotográfica, de artesanato e um palco por onde vão passar artistas cubanos e todos os grupos que integram a delegação pernambucana. Na noite de abertura, além da Steel Band, também se apresentaram os caboclinhos 7 Flexas e Canindé do Recife, os maracatus Leão Coroado e Piaba de Ouro e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério.
* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.
TV Viva
Quem não teve a oportunidade de ser uma dos cerca de 150 integrantes da delegação pernambucana à Santiago de Cuba, vai poder acompanhar cada detalhe da participação pela televisão. Uma equipe da TV Viva está registrando tudo, desde a espera na sala de embarque no Aeroporto Internacional dos Guararapes, aos shows que estão acontecendo na Casa de Pernambuco. O material colhido vai se transformar num programa de televisão que deve ser exibido na TV Pernambuco e na TV Universitária, além de servir para incrementar o documentário Pernamcubanos.
Homenagem
O videasta Nilton Pereira, da TV Viva, recebeu o Prêmio Internacional Casa do Caribe pelo esforço em aproximar a cultura pernambucana com a cubana. Antes dele, a curandeira conhecida como Berta, la pregoneira já havia recebido a condecoração nesta edição do evento. Moradora de Santiago de Cuba, ela virou uma personagem tradicional da cidade por vender produtos medicinais com roupas exóticas que lembram a brasileira Carmem Miranda. “Berta é muito mais do que uma imagem pitoresca, ela é a própria tradição da continuidade cultural do Caribe”, classificou os organizadores do Festival.
Acidente
Nem tudo foi alegria na abertura da Casa de Pernambuco. Durante a apresentação corpo-a-corpo da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, na noite do sábado, uma grade de ferro que tampava um fosso cedeu e fez um homem cair. Apesar do susto e da altura, a vítima foi rapidamente socorrida com um corte no braço direito e foi levada às autoridades médicas.