Embalos de uma nobreza nos trópicos
Thiago Corrêa
Como uma forma de marcar os 200 anos da chegada da corte portuguesa de Dom João VI ao Brasil, em 1808, a Prefeitura do Rio de Janeiro deu início a um projeto que pretende resgatar a cultura musical da época. Para isso, está lançando a série “A Música na Corte de D. João VI”, reunindo, em quatro CDs, as composições que marcaram os 13 anos da nobreza de Portugal nos trópicos.
Dois deles já saíram – “Te Deum & Requiem” e “Modinhas Cariocas”. O primeiro álbum foi gravado pela Orquestra Sinfônica da UFRJ sob a batuta do regente Ernani Aguiar. O disco reúne duas obras compostas pelo padre carioca José Maurício Nunes Garcia, nomeado mestre da Capela Real por D. João VI.
Na parte inicial do volume, está o “Te Deum das Matinas de São Pedro CPM 92″. Criado em 1809, o “Te Deum” traz elementos da música italiana, uma concessão feita por José Maurício à sua obra para agradar à corte. Apesar da temática religiosa, as composições despertam uma certa alegria por meio dos arranjos de violinos agitados e os coros que, quase sempre, acompanham o solo do tenor.
Deixando o tom festivo do “Te Deum” de lado, o “Requiem” foi criado sob encomenda para a cerimônia que marcou a morte da rainha D. Maria I, mãe de D. João VI, em 1816. Quando a compôs, José Maurício ainda sentia a perda da mãe, que também falecera. O lado sombrio da obra está presente em todos os seus dez momentos, com destaque para os coros aterrorizantes de “Dies Irae” e “Inter Oves”.
No álbum “Modinhas Cariocas”, porém, a sisudez religiosa dá lugar ao amor platônico e aos temas rurais. O disco traz músicas dos três principais compositores do gênero – Candido Ignácio da Silva, Gabriel Fernandes da Trindade e Joaquim Manoel Gago da Câmera – interpretadas pelas virtuosas vozes do barítono Marcelo Coutinho e da meio-soprano Luciana Costa e Silva, acompanhados de viola de arame, flauta e cravo.
Além de evocar a dor de cotovelo, as músicas ainda registram questões sociais da época. Estão presentes as mudanças causadas pelo progresso, em “Lá no Largo da Sé” de Candido da Silva, e o problema da mendigagem no Rio de Janeiro, retratado em “Graças aos Ceos (Lundum)”, de Gabriel Trindade.
O lançamento dos outros dois discos está previsto para este semestre ainda. Um deles reunirá outra obra do padre José Maurício, a “Missa de Nossa Senhora da Conceição”, gravada pela Orquestra Sinfônica Brasileira e o Coro Calíope. O último CD da série é “O Sacro e o Profano na Corte de D. João VI”.