Um baile de lembranças
Thiago Corrêa
A trilha sonora do filme “Chega da Saudade”, de Laís Bodanzky, começa com o vozeirão de Elza Soares suplicando “Não deixe o samba morrer / Não deixe o samba acabar”. Pedido feito, desejo atendido. A cantora recebe a ajuda da banda Luar de Prata e da voz de Marku Ribas, que na década de 70 abriu o show de James Brown e já tocou com Mick Jagger e os Rolling Stones nos anos 80.
Com os dois veteranos no vocal e os metais da Luar de Prata, o samba mostra que tem vida longa. No disco, o ritmo ainda marca presença com músicas como “Um Calo de Estimação” e “De Noite na Cama”, de Caetano Veloso, que ficou famosa na interpretação de Marisa Monte. Aqui, a canção ganhou uma nova roupagem, com uma levada funk pontuada pelo baixo de Fernando Nunes e a voz insinuante de Elza.
Mas nem só de samba é feita a trilha. O repertório é composto por músicas que circulam pelos bailes de terceira idade e festas de formatura. Assim, não poderia faltar forró, mambo e das orquestras de salão. O forró está representado por “Você Não Vale Nada”, que ganhou destaque por aqui devido a uma paródia política nas eleições para governador em 2006.
O disco bem que poderia ser confundido com o trabalho da Super Oara, não fossem os vocais de Elza, Ribas e os competentes metais da Luar de Prata. A eficiência do grupo fica evidente nas versões instrumentais de “Bebete Vãobora” e “Como uma Onda”. Nelas, o arranjo é tão bem executado que os metais parecem cantar, evocando as letras de Jorge Ben e Lulu Santos.
A única música que não conta com a participação da Luar de Prata é a que dá nome ao filme. “Chega de Saudade”, fruto da parceria entre dois pilares da Bossa Nova, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, é executada pelo mestre tropicalista Rogério Duprat. A versão instrumental ressalta as variações de tons nostálgicos e cômicos.
O ponto negativo são as ausências de “Your Song”, de Billy Paul e “Smoke Gets in Your Eyes”, da The Platters, além das as músicas de autoria de Martinho da Vila, que aparecem no longa. O sambista, porém, é lembrado com a versão de “Mulheres”, de Toninho Geraes, imortalizada por Martinho da Vila. Na trilha, a canção é interpretada por Ribas.