Fragmentos da noite nova-iorquina
Thiago Corrêa
Com mais de 20 anos de carreira, o DJ Moby sabe como poucos o que significa uma festa. Conhece as nuances da noite, os momentos de ansiedade que entram em ebulição e logo se transformam em agitação, euforia, sensualidade e, por fim, numa melancolia misturada com ressaca cheia de arrependimento. Em seu novo disco “Last Night”, o artista brinca com esse mix de sensações, traduzindo em música os climas noturnos.
Para isso, esse nova-iorquino nascido no Harlem buscou inspiração na dance music de sua cidade. Moby usa batidas bate-estaca, mistura barulhinhos de jogos eletrônicos dos anos 80-90, guitarras, teclados, som de violinos e vocais soul com hip hop. O resultado é uma grande variação de estilos. “Last Night” reúne o êxtase hipnótico da house music, em “The Stars”, com a música ambiente, o rap em “Alice” e o jazz na faixa escondida “Lucy Vida”.
Com esse arsenal, Moby prepara o terreno com as duas primeiras faixas “OohYeah” e “I Love to Move In Here”, mesclando a calmaria dos vocais com as batidas instigantes, sons de vídeo-game (quando eles ainda eram coisa de criança) e gritinhos que nos fazem lembrar os programas de auditório. Em seguida surge “257.zero”, para ser usada quando a festa já estiver faiscando, com as pessoas embaladas pelo álcool. Como não poderia faltar, a sensualidade aparece em “I’m In Love” e seus vocais femininos em forma de gemidos.
A desacelerada vem com “Sweet Apocalypse”, “Hyenas” e “Mothers of the Night”, que flerta com as músicas de Jon Brion criadas para a trilha do filme “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”. Além dele, Moby também parece ter se inspirado em Madonna, na dançante “Disco Lies”, e Björk na faixa-título “Last Night”.
Apesar de contar com participações especiais como a do MC Grandmaster Caz, do rapper Aynzli Jones e do grupo nigeriano 419 Squad; Moby faz um disco com músicas quase monossilábicas, que repetem expressões, simulam efeitos de admiração do público e coros. A escassez de palavras sugere os diálogos de uma boate, onde a escuridão e o som alto só permitem uma comunicação corporal.
