Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução
Thiago Corrêa*
SANTIAGO DE CUBA – Dado o histórico de rivalidade entre Cuba e os Estados Unidos, cujos resquícios da Guerra Fria continuam em voga neste pedaço de terra isolado pelo mar caribenho, chega a ser surpreendente perceber que a ilha de Fidel Castro possua uma cena de hip hop. Ainda que o grupo Orishas (natural de Cuba, mas radicado na Europa) tenha alcançado projeção internacional, o ritmo de origem americana não possui a mesma popularidade que a conga, a salsa e o reggaeton. Mas as novas gerações de artistas cubanos têm usado o rap como um escape para denunciarem as privações enfrentadas pela ilha por conta do regime político e o bloqueio comercial americano.
“O hip hop chegou à Cuba há cerca de 20 anos, mas em Santiago ele só veio aparecer uns dez anos atrás”, conta Alain, integrante do trio TNT La Resistencia, grupo originário de Santiago de Cuba que já se apresentou duas vezes no Brasil. “Em Santiago hoje temos uns oito grupos de hip hop. Antes havia mais, muitos pararam para fazer outro tipo de música por conta do dinheiro”, relata o rapper Eskeche, integrante do grupo Partidários, referindo-se aos artistas que optaram pelo reggaeton e misturas de salsa com rap. “Para ganhar dinheiro com música aqui é preciso ter o cartão de profissional, só que para tê-lo é preciso passar por uma verdadeira inquisição”, observa o músico da TNT.
A explicação para o êxodo foge as questões financeiras e entra no campo da política, excluindo os rappers cubanos da programação radiofônica. “Como o hip hop tem essa coisa de protesto, a gente é muito discriminado, sofremos censura e não conseguimos colocar nossas músicas nas rádios. Mas ouvimos rap americano no rádio, é uma contradição”, reclama Alain. “Se o hip hop não consegue entrar nos principais espaços de Cuba, então temos que trabalhar com espetáculos de rua e fazer apresentações na comunidade. É dessa forma que a gente consegue ganhar dinheiro do Governo”, completa o rapper da TNT, cujo projeto Sonido Urbano abre espaço para novos grupos se apresentarem às quartas-feiras.
Se a situação é semelhante a do Brasil, em Cuba esse problema se torna ainda maior por conta das dificuldades de acesso à internet. “É muito caro, não podemos para ficar gastando 8 CUC (peso conversível, equivalente a cerca de R$ 16) por uma hora de acesso. E mesmo assim, o limite de transferência de dados é de 2 megabytes, não dá para colocar músicas no MySpace”, explica o rapper moçambicano Corte Cir, que veio à Cuba estudar biologia e se encaixou na cena rap cubana.
A solução encontrada por eles então é contar com a colaboração de músicos estrangeiros que visitam a ilha. “A gente grava os discos e passa para pessoas de fora colocarem na internet e divulgar nossa música”, revela Corte Cir. “Já fizemos conexão com Moçambique, Angola, Suriname, Portugal e agora Brasil”, enumera Borrash Aka Independiente, integrante do grupo Golpe Seko junto com Yisi K’Liber e o DJ Rey 38.
O porta-voz escolhido pelos rappers santiagueiros desta vez foi Cannibal, da Devotos, que só na tarde da última quinta-feira foi procurado por três artistas locais para transferirem álbuns via pendrive ao seu notebook. Devido a todas as dificuldades enfrentadas por esses músicos, eles recorrem ao espírito de irmandade para continuar fazendo música de protesto. “Logo que cheguei aqui, eles abriram as portas de dois estúdios para mim porque é assim que eles encontram a possibilidade de aprender e conhecer novas formas de se fazer rap”, lembra Corte Cir.
* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.