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11
jul
10

Cuba | Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução

Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Dado o histórico de rivalidade entre Cuba e os Estados Unidos, cujos resquícios da Guerra Fria continuam em voga neste pedaço de terra isolado pelo mar caribenho, chega a ser surpreendente perceber que a ilha de Fidel Castro possua uma cena de hip hop. Ainda que o grupo Orishas (natural de Cuba, mas radicado na Europa) tenha alcançado projeção internacional, o ritmo de origem americana não possui a mesma popularidade que a conga, a salsa e o reggaeton. Mas as novas gerações de artistas cubanos têm usado o rap como um escape para denunciarem as privações enfrentadas pela ilha por conta do regime político e o bloqueio comercial americano.

“O hip hop chegou à Cuba há cerca de 20 anos, mas em Santiago ele só veio aparecer uns dez anos atrás”, conta Alain, integrante do trio TNT La Resistencia, grupo originário de Santiago de Cuba que já se apresentou duas vezes no Brasil. “Em Santiago hoje temos uns oito grupos de hip hop. Antes havia mais, muitos pararam para fazer outro tipo de música por conta do dinheiro”, relata o rapper Eskeche, integrante do grupo Partidários, referindo-se aos artistas que optaram pelo reggaeton e misturas de salsa com rap. “Para ganhar dinheiro com música aqui é preciso ter o cartão de profissional, só que para tê-lo é preciso passar por uma verdadeira inquisição”, observa o músico da TNT.

A explicação para o êxodo foge as questões financeiras e entra no campo da política, excluindo os rappers cubanos da programação radiofônica. “Como o hip hop tem essa coisa de protesto, a gente é muito discriminado, sofremos censura e não conseguimos colocar nossas músicas nas rádios. Mas ouvimos rap americano no rádio, é uma contradição”, reclama Alain. “Se o hip hop não consegue entrar nos principais espaços de Cuba, então temos que trabalhar com espetáculos de rua e fazer apresentações na comunidade. É dessa forma que a gente consegue ganhar dinheiro do Governo”, completa o rapper da TNT, cujo projeto Sonido Urbano abre espaço para novos grupos se apresentarem às quartas-feiras.

Se a situação é semelhante a do Brasil, em Cuba esse problema se torna ainda maior por conta das dificuldades de acesso à internet. “É muito caro, não podemos para ficar gastando 8 CUC (peso conversível, equivalente a cerca de R$ 16) por uma hora de acesso. E mesmo assim, o limite de transferência de dados é de 2 megabytes, não dá para colocar músicas no MySpace”, explica o rapper moçambicano Corte Cir, que veio à Cuba estudar biologia e se encaixou na cena rap cubana.

A solução encontrada por eles então é contar com a colaboração de músicos estrangeiros que visitam a ilha. “A gente grava os discos e passa para pessoas de fora colocarem na internet e divulgar nossa música”, revela Corte Cir. “Já fizemos conexão com Moçambique, Angola, Suriname, Portugal e agora Brasil”, enumera Borrash Aka Independiente, integrante do grupo Golpe Seko junto com Yisi K’Liber e o DJ Rey 38.

O porta-voz escolhido pelos rappers santiagueiros desta vez foi Cannibal, da Devotos, que só na tarde da última quinta-feira foi procurado por três artistas locais para transferirem álbuns via pendrive ao seu notebook. Devido a todas as dificuldades enfrentadas por esses músicos, eles recorrem ao espírito de irmandade para continuar fazendo música de protesto. “Logo que cheguei aqui, eles abriram as portas de dois estúdios para mim porque é assim que eles encontram a possibilidade de aprender e conhecer novas formas de se fazer rap”, lembra Corte Cir.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

11
jul
10

Cuba | Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música

Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Nem as diferenças de idioma nem as 7 horas e meia de viagem entre Recife e Santiago de Cuba foram capazes de distanciar o Alto José do Pinho com a comunidade de Portuondo. Em comum, os dois lugares carregam o peso de serem periferia e possuem artistas que usam a música como um instrumento de transformação social. A semelhança das histórias desses bairros fez o grupo TNT La Resistência se aproximar dos responsáveis pela experiência positiva na comunidade pernambucana.

Se em 2008 os rappers da TNT aproveitaram a passagem pelo Recife para visitar o Alto José do Pinho, na última quinta-feira foi a vez Zé Brown e Cannibal retribuírem a atenção indo a Portuondo. Os dois conheceram onde vivem os artistas santiagueiros, foram apresentados a seus familiares e viram aceitação que o trio de hip hop tem na comunidade ao fazer um show no meio da rua mesmo.

“O que me deixa feliz é ver eles realizarem as coisas. Apesar da precariedade de equipamento, eles são muito esforçados”, observa Zé Brown. “É o meu espelho, porque no início era complicado. A gente não tinha case e precisava ter o maior cuidado do mundo para não estragar os instrumentos no ônibus. Qualquer batidinha lascava tudo”, completa o rapper pernambucano.

Com todas essas identificações, o reencontro não podia deixar de passar pelo campo da música. A exemplo do que ocorreu no Recife, quando a TNT participou de uma faixa gravada pelo DJ Big, o encontro em Cuba também vai render frutos musicais. Na manhã de sexta-feira, os integrantes do grupo cubano se reuniram com Zé Brown, Josildo Sá, Cannibal e DJ Beto no estúdio Egrem (onde foram gravadas cenas do documentário Buena Vista Social Club) para gravarem duas faixas. As músicas vão integrar uma coletânea a ser lançada pela Fundarpe com artistas cubanos e a delegação pernambucana.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

06
jul
10

Cuba | Frutos cubanos na música pernambucana

Frutos cubanos na música pernambucana
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Conhecido pela sua pluralidade musical, o estado de Pernambuco deve ampliar ainda mais os seus horizontes. A delegação estadual de 162 pessoas que veio participar da 30a. edição do Festival do Caribe tem aproveitado a estada em solo cubano para conhecer sons, ritmos e artistas que dificilmente chegam aos seus ouvidos no Recife. Com a oportunidade de conferir apresentações culturais de paises como México, Haiti, Argentina, Cuba, Curaçao e Jamaica durante uma semana em 28 pontos da cidade de Santiago de Cuba, os artistas pernambucanos tem procurado observar e absorver essa experiência em seus trabalhos autorais.

Quem já está avançando nesse sentido é a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH). Para o seu segundo disco, que deve começar a ser gravado neste segundo semestre, o grupo planeja convidar um DJ cubano para participar do próximo álbum. “Vamos fazer uma faixa que vai condensar todas as músicas do disco e entregar para um DJ fazer um remix”, adianta o Maestro Forró, comandante da orquestra.

Além disso, ele revela que a sonoridade da OPBH não deve ficar imune ao acesso de tantas referências que os integrantes da banda estão tendo acesso. “Festivais como esse são uma oportunidade para colocar em prática a globalização real. O Festival do Caribe está linkado com a proposta da gente, de primeiro conhecer para depois misturar as linguagens. A gente está sempre transformando as coisas e essas viagens são como oportunidades de gerar mais diversidade para a nossa cultura”, explica Forró.

Outro grupo que está se valendo do Festival do Caribe para criar material novo é o grupo Fim de Feira. “Já comecei a compor baseado nessa experiência. Aqui é tudo muito diferente, é como se a gente saísse de uma romance de Gabriel Garcia Marquez”, diz o vocalista Bruno Lins. Mas ele acredita que o mais importante dessa experiência ultrapassa as questões estéticas e atinge o nível da relação das pessoas com a arte. “Não é só uma questão de influência musical, tem uma coisa antropológica mesmo. Porque aqui a música é questão de sobrevivência para os cubanos. Indepente do regime político deles, religião e mesmo das condições dos equipamentos, a gente vê que eles estão se divertindo enquanto tocam”, observa Bruno.

Uma relação que também parece ter efeito entre os outros integrantes da delegação estadual. Reunidos no Hotel Balcón do Caribe, os artistas pernambucanos têm interagido e se mostrado abertos na construção de novas parcerias. Algo que já era possível observar ainda no salão de embarque no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, quando o rapper Zé Brown sacou o pandeiro e começou uma roda de embolada com a participação de músicos da OPBH e Cannibal, da Devotos. “Estamos juntos no mesmo hotel e as coisas vão surgindo, tudo é uma grande brincadeira e a música”, conta o forrozeiro Josildo Sá, que fez participações nas apresentações da Fim de Feira e de Zé Brown.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.




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