Arquivo do Autor para Thiago Corrêa

28
ago
10

Roliúde dos palcos

Roliúde dos palcos
Thiago Corrêa

Com a boa repercussão do romance Roliúde, escrito por Homero Fonseca, não demorou muito para que os leitores entrassem no universo do personagem Bibiu e imaginasse a adaptação do livro para as salas de cinema. Algo que já começou a ser feito, com a elaboração do roteiro feita pelo cineasta Wilson Freire e o próprio autor da história. Mas antes, por um acaso que persegue os caminhos improváveis da arte, a obra caiu nas mãos do ator João Ricardo Oliveira e lhe despertou a vontade de levar para os palcos teatrais os causos vividos e contados por Bibiu.

Depois de uma temporada no Teatro Vanucci e no Centro Cultural da Justiça Federal no Rio de Janeiro, o espetáculo entra em cartaz no Teatro Apolo,  como parte da programação do festival A Letra e a Voz. “Estava vendo o que havia de interessante numa livraria e o título me chamou atenção. Depois, a capa, a sinopse. Comprei o livro e sentei em uma praça para ler. E ali mesmo, lá pela página vinte, já havia decidido transpor o romance para o palco”, recorda Oliveira. “Por causa da leitura, perdi a hora da sessão de cinema. Literalmente troquei Hollywood por Roliúde”, brinca ele.

Com a ideia fixa em mente, João Ricardo procurou Homero Fonseca para obter os direitos de adaptação. Numa dessas conversas ouviu a preocupação do escritor com relação ao sotaque do personagem para que não assumisse o tom estereotipado que os nordestinos assumem nas telenovelas. “Estudei o sotaque, a forma de falar, a nasalidade das palavras, o vocabulário. Foi interessante aprender que os sotaques são diferentes. O pernambucano não fala como o cearense, que não fala como o alagoano, que não fala como o baiano. Para a televisão, todo nordestino fala com sotaque baiano”, revela o ator.

Um cuidado que ele também precisou tomar para não se perder na veia oral com que o livro é construído. “No teatro precisamos minimizar a importância da palavra e assimilar outras ferramentas para estabelecer a comunicação, como a expressão corporal, a expressão facial, a mímica, a onomatopéia. Às vezes uma simples respiração ou pausa transmite toda uma ideia”, conta.

A exemplo do romance, o espetáculo mescla as confusões em que Bibiu se mete com as versões dos clássicos. “O que fiz então foi inserir, nas histórias vividas por Bibiu, personagens clássicos do cinema. Além disso, inseri um filme em um momento decisivo na vida de Bibiu, costurando as histórias das telas com a vida do personagem”, adianta.

Quanto ao formato, a peça pega carona na simplicidade de Bibiu de se valer apenas do gogó para ganhar a vida contando suas versões de clássicos do cinema. “A peça é um monólogo, uso apenas um banquinho. Artista de rua como Bibiu só pode contar consigo mesmo. Não usa elementos cênicos, objetos, troca de figurino, cenários. Sua matéria-prima é a imaginação”, explica João Ricardo Oliveira. “Usar projeções resultaria num espetáculo talvez até mais bonito visualmente falando, mas longe de suas origens, infiel à sua proposta original”, completa.

27
ago
10

De Mussolini a Berlusconi

De Mussolini a Berlusconi
Thiago Corrêa

Com a sombra do magnata das comunicações, Silvio Berlusconi, no posto de primeiro-ministro da Itália desde 1994; a tela do cinema tem servido como um espaço de reflexão e denúncia dos perigos que a sociedade está se submetendo nas últimas décadas. Um posicionamento que o cineasta Nanni Moretti assumiu de forma veemente em O crocodilo (2006), onde ele próprio assume o papel de Berlusconi, depois surge na temática da máfia italiana com Gomorra (2008) de Matteo Garrone e reaparece no filme Vincere (vencer, em português) de diretor veterano Marco Bellocchio, que entra em cartaz a partir de hoje no Cinema da Fundação.

A briga de Bellocchio acontece pelo viés histórico, pegando a figura do ditador fascista Benito Mussolini, interpretado por Filippo Timi. A trajetória política do jovem Duce (termo italiano que equivale a líder e era usado como referência a Mussolini), no entanto, é contada a reboque de um fato menos conhecido da sua biografia. O foco do filme se confunde com o caso amoroso que ele teve com a modista Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) e resultou num filho. Fulminada por uma paixão que lhe marca pelo resto da vida, Ida se deixa envolver pelos sonhos do então jovem agitador socialista.

Para conquistá-lo, ela não mede esforços amorosos e financeiros, vendendo até o seu estúdio de moda para financiar o planos de Mussolini de abrir um jornal próprio, que serviria para veicular suas ideias políticas e conquistar o apoio do povo (mais um ponto em comum com Berlusconi). Mas logo a fome de poder do Duce se revela, resultando num processo de rejeição que desemboca na vigília constante, na internação de Ida num manicômio e no encaminhamento do filho para adoção.

Enquanto essa trama se desenrola, vemos a transformação da trajetória política do ditador Benito Mussolini. Se na cena inicial ele aparece como um propagador do socialismo que desafia deus a fulminá-lo como prova da inexistência da força divina; ao longo do filme vemos o líder italiano desfazer seus compromissos com a classe trabalhadora e se aliar à igreja católica.

Algo que Bellocchio constrói com maestria ao aliar a estética do futurismo, com grandes atuações de Filippo Timi, Giovanna Mezzorgiorno e do próprio Mussolini (por meio de imagens de arquivo), e uma série de sequências que ocorrem no cinema. Uma bela homenagem à sala escura, em que o diretor afirma que o cinema tem, sim, seu papel político e pode tanto construir mitos perversos feito o Duce como funcionar de redenção, a exemplo da cena em que Ida assiste ao filme O garoto de Charles Chaplin.

Embora a motivação principal de Ida seja motivada por um interesse passional, com ela acreditando no ressurgimento do amor de Mussolini; o filme é carregado de sentido político. A ameaça à liberdade é um tema constante da obra, sendo representada de forma sugestiva através da internação de Ida. Suas tentativas de ter a paternidade do filho reconhecida pelo fascista rendem cenas emblemáticas onde ela procura fazer com que suas cartas cheguem a outras pessoas.

Uma luta que serve como metáfora do sufocamento vivido pela sociedade italiana durante o fascismo e também pode ser aplicado aos dias atuais, como verbaliza o médico Cappelletti ao falar sobre os riscos de enfrentar o regime ditatorial. Ao ponto de, numa passagem, Ida ser tachada de louca por falar a verdade na condição de oposição.

04
ago
10

Das sombras para a luz da consagração

Das sombras para a luz da consagração
Thiago Corrêa

Com 15 livros publicados, participação em diversas antologias e responsável direto pela formação de dezenas de, se não escritores, ao menos leitores atentos através de suas oficinas; o escritor pernambucano Raimundo Carrero viu a sua carreira ser coroada no ano em que completa 35 anos de literatura. Por volta das 21h da última segunda-feira, seu romance A minha alma é irmã de deus (2009) foi anunciado como vencedor do 3º Prêmio São Paulo de Literatura, durante cerimônia realizada no Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista.

Dessa forma, o mais cobiçado título da literatura brasileira, até porque oferece R$ 200 mil aos ganhadores, permanece entre autores que construíram suas obras em Pernambuco. Chega às mãos de Carrero um ano depois de consagrar o cearense (radicado no Recife) Ronaldo Correia de Brito, vencedor da edição de 2009 com o romance Galiléia. “Como Ronaldo tinha ganho ano passado, eu disse lá (na cerimônia) que esse prêmio era para o Nordeste acabar com essa mania de invadir São Paulo”, brincou Carrero, em entrevista ao Diario, numa alusão ao movimento migratório de artistas que tentam melhor sorte na capital paulista.

A honraria  – também já recebida pelo catarinense Cristovão Tezza, pelo romance O filho eterno em 2008 – não é a única da trajetória persistente de Carrero. A obra do pernambucano já vinha colecionando títulos desde 1986, quando venceu o prêmio Lucilo Varejão (concedido pela Prefeitura do Recife) com O senhor dos sonhos, e o José Condé (do Governo de Pernambuco) com Sombra severa. Nove anos depois, sua obra ganhou projeção nacional com a conquista de Somos pedras que se consomem do prêmio de melhor livro de ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

No ano seguinte, esse mesmo título recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Depois, em 2000, foi a vez de As sombrias ruínas da alma levar o Prêmio Jabuti na categoria de contos e crônicas. Em dezembro do ano passado, o autor conquistou pela segunda vez o Prêmio Machado de Assis com A minha alma é irmã de deus. Um currículo que ainda pode ser ampliado, afinal o romance de 2009 está entre os 54 semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom.

Mas apesar de toda essa experiência, o autor pernambucano confessa que não esperava o título. “Existia a expectativa, mas é sempre uma surpresa. Porque você está numa relação de dez autores que tinha um bom livro de Chico Buarque, um escritor como João Ubaldo Ribeiro e outros bons autores”, disse Carrero. Ao ouvir o seu nome como ganhador do prêmio, o pernambucano mal pôde conter a emoção. “Eu achava que ia manter a frieza, mas me emocionei muito, por pouco não chorei. A gente sabe o que representa o Prêmio São de Literatura”, revelou o escritor.

Livro - A minha alma é irmã de deus segue a linha de experimentação de linguagem explorada por Carrero nos seus últimos livros, onde o autor investiga a maleabilidade da memória a partir de uma narrativa de poucas ações, mas que se desdobra no plano psicológico. O romance conta a história de Camila, uma jovem de classe média que assume outras quatro personalidades, num jogo contraditório sobre a alma humana. Com o livro, Carrero fechou o ciclo Quarteto Áspero, composto por Maçã Agreste (1989) e continuado com Somos pedras que se consomem (1995) e O amor não tem bons sentimentos (2007). Ano passado, o romance ganhou uma versão para o cinema pelas mãos da cineasta Luci Alcântara. O curta está na programação oficial do Festival de Cinema de Gramado, que inicia na próxima sexta-feira.

Estreante - Como sempre acontece no Prêmio São Paulo de Literatura, também foi anunciado, na noite de segunda-feira, o livro vencedor na categoria autor estreante. Neste ano, o escolhido foi o romance Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre. “Trabalhei nesse livro durante seis anos e percebo que ele continua assustadoramente atual, especialmente no tocante ao personagem da mulher que, depois de maltratada, é informada de que vai morrer”, disse à Agência Estado. O jornalista da TV Globo entra no time de apostas do prêmio que já conta com Tatiana Salem Levy (por A chave de casa, em 2008) e o gaúcho Altair Martins (por A parede no escuro, em 2009).

Currículo de prêmios conquistados por Raimundo Carrero

1986
O senhor dos sonhos vence o Prêmio Lucilo Varejão, da Prefeitura do Recife
Sombra Severa vence o Prêmio José Condé, do Governo de Pernambuco
1995
Somos pedras que se consomem vence o APCA na categoria ficção
1996
Somos pedras que se consomem vence o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional
2000
As sombrias ruínas da alma vence o Prêmio Jabuti na categoria contos e crônicas
2009
A minha alma é irmã de deus vence o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional
2010
A minha alma é irmã de deus vence o Prêmio São Paulo de Literatura

* Texto publicado no Diario de Pernambuco, na edição do dia 4 de agosto de 2010

01
ago
10

Miró: o gol de letra da poesia

Miró: o gol de letra da poesia
Thiago Corrêa

Sorriso de moleque, olhar triste, gestos de pessoa decidida. Prestes a completar 50 anos, o tempo ficou marcado no semblante de José Flávio Cordeiro da Silva. Ex-servente da finada Sudene, ele acabou se consolidando na literatura como Miró. Apesar de ser torcedor do Sport, o poeta ganhou o apelido nas peladas que jogava quando jovem no bairro da Encruzilhada por conta de um jogador do Santa Cruz. Mais do que o apelido, foi graças aos colegas de futebol que Miró foi apresentado à poesia de Carlos Drummond de Andrade. Os versos do poeta mineiro abriram um novo caminho na vida de Miró e, desde então, encarou a palavra (falada e escrita) como uma profissão, um convite para se jogar no “mundo mundo vasto mundo”. Na próxima sexta-feira, Miró comemora seu aniversário reunindo admiradores da sua obra com o lançamento do livro Quase crônico e a première do curta Breve ensaio sobre a brutalidade humana, baseado no seu poema Aconteceu em Fortaleza e dirigido por Wilson Freire. A festa está marcada para as 19h, na sala Joaquim Cardozo, na Fundação Joaquim Nabuco do Derby.

Como surgiu a poesia na sua vida?
Nasci na Encruzilhada, minha vida foi na rua Dom Vital. Nessa época a classe média morava perto dos pobres. O que me despertou para a poesia foi esse convívio com a classe média. Porque eu jogava muita bola, era um craque e me dei bem no meio do pessoal branco. E não foi só pelo futebol, eram pessoas de coração bom: Maurício Silva, Zé Rocha, Alexandre Silva. A poesia me veio como um tiro de gol, o futebol me trouxe a poesia. Eles me mostravam coisas como Drummond. Foi ali, na rua Dom Vital, que nasceu o dom vital, a essência de poder escrever. Eu podia hoje ser um marginal, mas dei para a poesia, para o lado do amor, de contestar o universo.

Quando você se viu como escritor?
O primeiro poema que escrevi que achei bom mesmo foi o Quatro horas e um minutos, quando escrevi ele percebi que estava pronto. Nessa época, o pai de Maurício tinha arrumado um emprego de servente para mim na Sudene. Lá conheci Wilson de Souza e Maria do Carmo Barreto Campelo, que me ajudaram a lançar meu primeiro livro: Quem descobriu o azul anil em 1985.

Depois disso você passou uma temporada em São Paulo. Qual a importância dessa experiência para sua carreira?
Meu sonho era conhecer o Rio de Janeiro para jogar no Flamengo, mas fui para São Paulo com o poeta Milton Aguiar de carro. Quando cheguei lá, eu pirei, entrei num transe literário, cinematográfico que mexeu com minha cabeça. Foi ali que conheci o Brasil, São Paulo me deu uma visão de mundo e vi que queria trabalhar lá. Ali minha literatura cotidiana fluiu mais, ficou mais cosmopolita, aquela cidade tem tudo. São Paulo foi minha conexão para descobrir onde é que eu estou, em que planeta eu vivo, quais as questões da sociedade.

Sua obra é voltada para poesia, mas ela também cumpre uma função de crônica, de relatar o que acontece na rua. Como surge o estalo para fazer você escrever?
Minha literatura é muito sobre o olhar no mundo, meu passeio pelo mundo. Não estudei, não fui à universidade, mas tenho uma sensibilidade aguçada, gosto de conversar com as pessoas que nunca vi. Trago a questão do humano na rua, o cotidiano, as dores do mundo. As vezes surge de uma conversa que escuto na rua. Quando tenho um estalo, escrevo na hora, não demoro três dias para escrever um poema. Entro no transe, tenho a TPM de fazer o poema na hora, meu exercício não permite que eu leve cinco dias para escrever uma coisa. Cida Pedrosa diz que sou meu próprio poema. Não invento, não volto para casa para escrever. Sou um cronista de minicontos, trago a realidade crua para que as pessoas pensem que é ficcional. Poesia, para mim, é perturbação.

Como você percebe que o poema está pronto?
É quando eu gosto. Depois tem o processo de perguntar aos amigos, vou falando para eles e na quinta pessoa já sei se o poema é bom, se o ritmo é bom, se pegou, se não pegou.

Na hora de compor um livro, como se dá a seleção dos poemas?
Não tenho organização quase nenhuma. Primeiro não penso que estou escrevendo um livro. Vou escrevendo os poemas aí uma hora eu digo: pronto, acho que agora dá para fazer um livro. Fecho 20 ou 30 poemas e pronto, porque mais que isso fica cansativo. Quando coloco a ideia de fazer um livro, eu faço. Com papel de pão, em guardanapo, mas eu faço. Tenho uma coisa com meus livros que se demorar muito não faço mais, sou um cara desleixado. Não tenho regras, nunca trabalhei para ninguém depois de 1985. O que tenho é o fazer espontâneo, minha vida é espiritual.

Você se incomoda em ver que sua performance é mais conhecida do que sua poesia?
Não sou só recital, minha poesia é verossímil, ela denuncia, tem valor ali. Agora, quando eu falo, é melhor. Gostava de ler no colégio, a professora me elogiava, porque eu sabia fazer as pausas da leitura. Performance também é literatura, meu corpo e minha oralidade fez com que eu fosse mais conhecido na rua do que meus livros. Tenho a expressão de ir no coração do sujeito, não fico em livrarias.

Na dissertação de mestrado de André Telles do Rosário, ele defende que a seleção de poemas nos seus recitais é de acordo com o público. Isso acontece mesmo?
Depois de um tempo comecei a viver de cachês e passei a ser convidado para recitar meus poemas em escolas. Então eu escolhia alguns poemas que podia falar naquele ambiente, os alunos que pediam para falar o da mulher da bundona ou da que chupou o peito. Em alguns momentos tenho que me segurar, porque tem R$ 500 na jogada e eu só tenho essa função na vida. Depois de 1985, nunca mais tive emprego. Se eu vivo disso, como sou um operário da palavra, então você tem que se adequar. Agora, quando estou num bar, é diferente. Vou sempre com uns cinco poemas no gatilho, chego no lugar, converso com as pessoas para sentir o clima e vejo onde estou pisando. Eu prezo muito em pegar o sujeito e trazer ele para mim, mando um com temática social e depois falo um de peito. A possibilidade do lirismo permite que eu possa falar de outra coisa.

Você está completando 50 anos de vida e 25 de literatura. De 1985 para cá, o que mudou na sua obra?
Percebo mais um engajamento de denunciar, o cuidado de não parecer mais o mesmo. O que me alegra na poesia até hoje é o que está no cotidiano mesmo.

Valeu a pena, Miró?
Não existe melhor maneira de se trabalhar do que o da pulsação do coração. Lembro de uma pessoa que comprou meu livro e disse que antes nunca tinha comprado um livro. O que me alegra é andar na rua e encontrar pessoas, que eu nunca vi, e dizer que mudei a vida deles. Chega gente e diz que, depois de me ver na escola, se descobriu como poeta. Acho que já mudei um pouco as pessoas que não tinham o costume de ler poesia ou mesmo de ler livros. Isso é uma revolução, um orgasmo que não tem camisinha que aguente.

E quanto ao público, você percebe uma aceitação maior aos recitais de poesia?
Sim, há uma diferença enorme. Se tem uma coisa que mudou é que as pessoas estão saindo de casa para assistir poesia. Tem muita gente querendo falar poesia, só que o espaço é pequeno. A prefeitura e o governo deviam apoiar mais, Recife não tem uma feira de livro num domingo do mês. Isso é uma vergonha, não tem um espaço para os poetas dizerem suas poesias. Basta um microfone e duas caixas de som. Recife é uma cidade cruel com os poetas, a prefeitura e a Fundarpe pagam mal. Um cachê de R$ 150 é uma vergonha, muitos poetas estão desistindo por causa disso. Tinham que fazer contratos mais longos, para fazer oficina, se apresentar não sei onde.

Como você vê o momento da poesia oral no Recife?
Em Recife não há uma união entre os poetas, existe amizade. E falta um apoio maior, só aparecem algumas migalhas. Recife não se organiza, não tem o que está acontecendo com os recitais de São Paulo, como o da Cooperifa de Sérgio Vaz, por exemplo. Minha geração teve isso com França, mas perdemos isso. Se tem alguém que está fazendo isso é Cida Pedrosa, se ela tivesse mais tempo ela seria uma Sérgio Vaz. Agora está vindo muita gente jovem boa, tem uns meninos de São José do Egito aí que são muito bons. Os meninos do sertão estão vindo com força.

31
jul
10

O adeus a Amílcar

O adeus a Amílcar
Thiago Corrêa

A literatura pernambucana está de luto. Na noite da última quinta-feira, por volta das 22h, o escritor Amílcar Dória Matos foi encontrado morto em sua residência e foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro na tarde de ontem. Aos 72 anos, ele deixa vaga a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras (APL) e uma obra com mais de 12 livros publicados à espera de uma nova avaliação crítica para, quem sabe, conseguir aquilo que ele tanto perseguiu durante a vida: reconhecimento.

A morte aconteceu de forma natural, em 2008 o escritor já havia sido internado para se curar uma tuberculose. Ao se recuperar, ele deu início a um processo de reclusão, confinado em seu apartamento, sem mais ânimo para rever amigos como o escritor Gilvan Lemos e o filósofo Nelson Saldanha nas tardes da sexta-feira no finado restaurante Galo D’Ouro. “Acho que ele já vinha se despedindo há um tempo, cada vez mais ele estava mais recluso. A morte foi uma conclusão”, disse a filha Adriana Dória Matos, que seguiu os passos do pai na carreira jornalística e hoje edita a revista Continente. Além dela, o escritor também deixa outra filha, Andréia.

Apesar de ter se formado em Direito, o gosto de Amílcar pelas letras fez ele optar pelo jornalismo, trabalhando como assessor de imprensa de políticos, ghost writer e editorialista do Diario de Pernambuco. Também foi funcionário público, atuando por mais de 20 anos na antiga Sudene. Em paralelo, ele sempre nutriu o desejo de se consolidar como escritor. Em 1974 veio o primeiro livro: O sexo poupado. Depois vieram títulos como A chama suspensa que, editado pela Ática, teve uma boa repercussão e deu ao autor visibilidade nacional.

Ainda que não tenha alcançado essa mesma projeção, outros títulos de Amílcar permanecem valorizados entre alguns dos melhores escritores de Pernambuco. “Gosto muito do romance A trama da inocência, que tinha uma trama muito forte, de angústia humana. Fiquei muito impressionada pela profundidade psicológica do texto dele e por sua seriedade intelectual”, observou a escritora e professora de Letras da UFPE, Luzilá Gonçalves Ferreira.

Outro que também não esquece a obra de Amílcar é Raimundo Carrero. Nos primórdios das suas oficinas literárias, ele chegou a adotar em sala o romance Cartas do espelho. “Amílcar era um ótimo escritor solitário, com técnicas próprias, personagens fortes, de estilo clássico e detalhista, em certo sentido até perfeccionista”, avaliou Carrero. Um cuidado demonstrado por todos os gêneros que o escritor experimentou: cartas, poemas, explorou o soneto, o conto, romance e chegou a fazer um livro só com diálogos.

Avesso ao mundo dos computadores, Amílcar continuava escrevendo suas histórias à mão, para depois digitá-las na máquina de escrever ou para passá-las para a tela digital. Ultimamente ele vinha se dedicando a livros voltados ao público infantil e lançou alguns títulos pela editora Edificantes, mas nunca mais teve a mesma projeção de A chama suspensa. “Ele era muito idealista e aquilo que ele acabou projetando para sua vida acabou virando um fracasso”, analisou a filha Adriana. “Ele precisa ser relido, tenho esse projeto de reeditar sua obra. O escritor só existe quando é lido”, revelou a filha, na esperança de ter, no plano da ficção, mais alguns momentos com o pai.

29
jul
10

Fragmentos do Senhor das Sombras

Fragmentos do Senhor das Sombras
Thiago Corrêa

Como um artesão, que acredita mais no suor e na persistência do que na inspiração, o escritor Raimundo Carrero construiu uma das carreiras mais sólidas da literatura brasileira das últimas três décadas. Para marcar o feito, em 2005 o autor iniciou uma série de comemorações que envolveu o documentário O caçador de assombrações, de Clara Angélica, e o relançamento dos seus três primeiros títulos. O ciclo de festividades se encerra com o lançamento da fotobiografia Raimundo Carrero: A framentação do humano, organizada pelo jornalista Marcelo Pereira. O livro tem noite de autógrafos hoje, às 19h, na Livraria da Jaqueira (Rua Antenor Navarro, 138, no bairro da Jaqueira).

A edição tem requintes de luxo, com tamanho A4, papel couchê e belas fotos do autor captadas pelas lentes de Roberta Guimarães. O conteúdo reúne desde impressões sobre Carrero do poeta Fabrício Carpinejar e Marcelino Freire ao conto inédito O paraíso com pão e manteiga; mais relatos, análises e textos promocionais sobre cada uma das 15 obras publicadas por Carrero até então; cronologia e uma Bibliografia crítica, analítica e anotada organizada pelo professor de Letras da UFPE, Anco Márcio Tenório Vieira.

O ouro, no entanto, está no Sísifo Pernambucano (retrospectiva da trajetória do autor escrita por Pereira) e na entrevista de fôlego feita pelo jornalista com o escritor. Complementares, essas partes servem como um acesso ao sombrio labirinto da alma de Carrero e suas estratégias de inserção no campo das letras. Na conversa, ele revela particularidades da sua vida, interesses literários, escolhas estéticas, preocupações religiosas e angústias. A retrospectiva, por outro lado, é construída a partir da repercussão da obra de Carrero na mídia impressa.

A partir das reflexões de nomes importantes como os do escritor Gilvan Lemos e dos críticos Otto Lara Resende e César Leal, fica claro o pleno controle de Carrero sobre como seria construída a sua obra desde a estreia, aos 26 anos. Já na repercussão de A história de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão (1975), novela influenciada pelo Movimento Armorial, é possível perceber as intenções e angústias que marcaram o resto da atormentada trajetória do escritor. De quebra, ao reconstituir a carreira literária do autor de Sombra severa pela imprensa, Pereira acaba relembrando um pouco da história do jornalismo cultural brasileiro.

Apesar disso, o livro apresenta algumas imprecisões que comprometem o valor de documento. Até pelo tempo que durou a sua construção, a edição guarda uma imprecisão quanto ao intervalo de analise da pesquisa. Um exemplo é que, em certos momentos da entrevista, Carrero comenta sobre a boa repercussão de O amor não tem bons sentimentos, mas logo depois diz que vai se dedicar ao livro e, em seguida, reaparece reclamando da demora da publicação do mesmo livro.

Um equívoco que também se evidencia no fato da seção Bibliografia crítica, analítica e anotada de Raimundo Carrero ter sua abrangência registrada entre 1973 e 2005, enquanto a cronologia chega até 2009, ano de lançamento dos livros A preparação do escritor e A minha alma é irmã de deus. Nada que comprometa o competente trabalho de pesquisa e organização de Anco Márcio, contudo o descompasso temporal da edição inevitavelmente torna a fortuna crítica incompleta, defasada do que aconteceu depois de 2005 na carreira do escritor.

11
jul
10

Cuba | Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução

Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Dado o histórico de rivalidade entre Cuba e os Estados Unidos, cujos resquícios da Guerra Fria continuam em voga neste pedaço de terra isolado pelo mar caribenho, chega a ser surpreendente perceber que a ilha de Fidel Castro possua uma cena de hip hop. Ainda que o grupo Orishas (natural de Cuba, mas radicado na Europa) tenha alcançado projeção internacional, o ritmo de origem americana não possui a mesma popularidade que a conga, a salsa e o reggaeton. Mas as novas gerações de artistas cubanos têm usado o rap como um escape para denunciarem as privações enfrentadas pela ilha por conta do regime político e o bloqueio comercial americano.

“O hip hop chegou à Cuba há cerca de 20 anos, mas em Santiago ele só veio aparecer uns dez anos atrás”, conta Alain, integrante do trio TNT La Resistencia, grupo originário de Santiago de Cuba que já se apresentou duas vezes no Brasil. “Em Santiago hoje temos uns oito grupos de hip hop. Antes havia mais, muitos pararam para fazer outro tipo de música por conta do dinheiro”, relata o rapper Eskeche, integrante do grupo Partidários, referindo-se aos artistas que optaram pelo reggaeton e misturas de salsa com rap. “Para ganhar dinheiro com música aqui é preciso ter o cartão de profissional, só que para tê-lo é preciso passar por uma verdadeira inquisição”, observa o músico da TNT.

A explicação para o êxodo foge as questões financeiras e entra no campo da política, excluindo os rappers cubanos da programação radiofônica. “Como o hip hop tem essa coisa de protesto, a gente é muito discriminado, sofremos censura e não conseguimos colocar nossas músicas nas rádios. Mas ouvimos rap americano no rádio, é uma contradição”, reclama Alain. “Se o hip hop não consegue entrar nos principais espaços de Cuba, então temos que trabalhar com espetáculos de rua e fazer apresentações na comunidade. É dessa forma que a gente consegue ganhar dinheiro do Governo”, completa o rapper da TNT, cujo projeto Sonido Urbano abre espaço para novos grupos se apresentarem às quartas-feiras.

Se a situação é semelhante a do Brasil, em Cuba esse problema se torna ainda maior por conta das dificuldades de acesso à internet. “É muito caro, não podemos para ficar gastando 8 CUC (peso conversível, equivalente a cerca de R$ 16) por uma hora de acesso. E mesmo assim, o limite de transferência de dados é de 2 megabytes, não dá para colocar músicas no MySpace”, explica o rapper moçambicano Corte Cir, que veio à Cuba estudar biologia e se encaixou na cena rap cubana.

A solução encontrada por eles então é contar com a colaboração de músicos estrangeiros que visitam a ilha. “A gente grava os discos e passa para pessoas de fora colocarem na internet e divulgar nossa música”, revela Corte Cir. “Já fizemos conexão com Moçambique, Angola, Suriname, Portugal e agora Brasil”, enumera Borrash Aka Independiente, integrante do grupo Golpe Seko junto com Yisi K’Liber e o DJ Rey 38.

O porta-voz escolhido pelos rappers santiagueiros desta vez foi Cannibal, da Devotos, que só na tarde da última quinta-feira foi procurado por três artistas locais para transferirem álbuns via pendrive ao seu notebook. Devido a todas as dificuldades enfrentadas por esses músicos, eles recorrem ao espírito de irmandade para continuar fazendo música de protesto. “Logo que cheguei aqui, eles abriram as portas de dois estúdios para mim porque é assim que eles encontram a possibilidade de aprender e conhecer novas formas de se fazer rap”, lembra Corte Cir.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

11
jul
10

Cuba | Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música

Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Nem as diferenças de idioma nem as 7 horas e meia de viagem entre Recife e Santiago de Cuba foram capazes de distanciar o Alto José do Pinho com a comunidade de Portuondo. Em comum, os dois lugares carregam o peso de serem periferia e possuem artistas que usam a música como um instrumento de transformação social. A semelhança das histórias desses bairros fez o grupo TNT La Resistência se aproximar dos responsáveis pela experiência positiva na comunidade pernambucana.

Se em 2008 os rappers da TNT aproveitaram a passagem pelo Recife para visitar o Alto José do Pinho, na última quinta-feira foi a vez Zé Brown e Cannibal retribuírem a atenção indo a Portuondo. Os dois conheceram onde vivem os artistas santiagueiros, foram apresentados a seus familiares e viram aceitação que o trio de hip hop tem na comunidade ao fazer um show no meio da rua mesmo.

“O que me deixa feliz é ver eles realizarem as coisas. Apesar da precariedade de equipamento, eles são muito esforçados”, observa Zé Brown. “É o meu espelho, porque no início era complicado. A gente não tinha case e precisava ter o maior cuidado do mundo para não estragar os instrumentos no ônibus. Qualquer batidinha lascava tudo”, completa o rapper pernambucano.

Com todas essas identificações, o reencontro não podia deixar de passar pelo campo da música. A exemplo do que ocorreu no Recife, quando a TNT participou de uma faixa gravada pelo DJ Big, o encontro em Cuba também vai render frutos musicais. Na manhã de sexta-feira, os integrantes do grupo cubano se reuniram com Zé Brown, Josildo Sá, Cannibal e DJ Beto no estúdio Egrem (onde foram gravadas cenas do documentário Buena Vista Social Club) para gravarem duas faixas. As músicas vão integrar uma coletânea a ser lançada pela Fundarpe com artistas cubanos e a delegação pernambucana.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

11
jul
10

Cuba | Versos do hip hop quebram silêncio da censura

Versos do hip hop quebram silêncio da censura
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Por mais que muros, placas e outdoors de Santiago de Cuba estampem mensagens enaltecendo o espírito revolucionário, a política é um assunto que tanto pode despertar a verborragia entre os cubanos como é capaz de provocar silêncios quando se propõe um viés crítico em relação ao governo. Mas essa ausência de som tem sido vencida aos poucos pelos versos ritmados de jovens da periferia de Santiago.

Com bases eletrônicas ao fundo, eles vêm se apresentando em palcos alternativos da cidade e mandando suas mensagens para tentar mudar a realidade social em que se encontram. “O mais importante é que a gente não se censure. A partir do momento que a gente libera aquilo que está aqui dentro, as coisas começam a acontecer”, defende o rapper Borrash Aka Independiente.“Como a situação do nosso país está pior, isso acaba se refletindo nas letras”, explica Alain, da TNT La Resitência.

Em termos musicais, uma coisa que chamou a atenção de Zé Brown foi a maneira como eles driblaram a carência por equipamentos. “Aqui eles não têm DJ, colocam um CD com a base eletrônica na mesa de som e mandam ver”, diz o rapper do Alto José do Pinho. Já o moçambicano radicado em Santiago, Corte Cir, percebe que o rap cubano tem suas peculiaridades estéticas. “Existe uma diferença grande, o hip hop cubano é mais cantado. Eles são mais artísticos, cantam e rapeiam ao mesmo tempo”, compara.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

09
jul
10

Cuba | Orgulho da Santería

Orgulho da Santería
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – O quinto dia do Festival do Caribe foi marcado pela cerimônia em homenagem aos cimarrones, equivalente cubano dos nossos quilombolas, na comunidade El Cobre. O local, situado a 22 quilômetros de Santiago de Cuba, abrigou a primeira mina de cobre da América Latina, fazendo uso da exploração de mão-de-obra escrava, e é considerado um dos principais sítios do espírito revolucionário cubano por ter sido nele onde os negros começaram a se rebelar contra a escravidão.

Nesse lugar histórico, todos os anos é celebrado um ritual artístico-religioso em que se fazem oferendas ao orixá Elegua, conhecido no Brasil como Exu. “O interessante é que, para a gente, Exu tem essa mística de ser ligado a coisas ruins, mas aqui não, ele é tratado feito os outros orixás, o primeiro que aparece nas casas. Lá, até o pessoal que faz o ritual tem medo”, compara Guitinho, vocalista do grupo Bongar, que é ligado ao Terreiro de Xambá e vem estudando as práticas religiosas africanas no curso de Ciências Sociais da UFPE.

Ainda que a cerimônia nos dias de hoje já sofra com interferências da lógica do espetáculo para turista ver, com a presença de dezenas de fotógrafos e câmeras filmadoras em plena roda do ritual, a devoção dos cubanos pela santería não se restringe apenas ao terreiro e homenagens como a dos cimarrones. “Lá no Brasil tudo está cada vez mais ligado ao espetáculo, como se fosse uma grande mise en scene. Aqui não, eles vivem mesmo a santería”, observa o Mestre Afonso, que participou do ritual comandando o Maracatu Leão Coroado.

“No dia-a-dia eles se referem aos orixás, as pessoas usam as guias toda hora, em todo canto. Em Pernambuco isso é mais tímido, fica mais dentro do terreiro, até por conta do preconceito que o candomblé ainda sofre por lá”, completa Guitinho. “Essa firmeza deles em cultuar os orixás é muito mais forte por conta da situação de pobreza em que eles vivem. São tantas privações que eles acabam se apegando à religião como uma forma de se proteger”, explica Mestre Afonso.

Já para Beth de Oxum, ligada ao coco de umbigada, as diferenças com o Brasil têm influência no regime político adotado por Cuba. “A gente vem pensando naquela coisa de que país socialista não tem religião e leva uma tapa na cara porque a santería aqui é muito forte. Como a religião católica foi banida, abriu-se espaço para as religiões africanas e fez com que a santería não tivesse os traços cristãos que temos no Brasil”, analisa Beth.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.




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