De Mussolini a Berlusconi
Thiago Corrêa
Com a sombra do magnata das comunicações, Silvio Berlusconi, no posto de primeiro-ministro da Itália desde 1994; a tela do cinema tem servido como um espaço de reflexão e denúncia dos perigos que a sociedade está se submetendo nas últimas décadas. Um posicionamento que o cineasta Nanni Moretti assumiu de forma veemente em O crocodilo (2006), onde ele próprio assume o papel de Berlusconi, depois surge na temática da máfia italiana com Gomorra (2008) de Matteo Garrone e reaparece no filme Vincere (vencer, em português) de diretor veterano Marco Bellocchio, que entra em cartaz a partir de hoje no Cinema da Fundação.
A briga de Bellocchio acontece pelo viés histórico, pegando a figura do ditador fascista Benito Mussolini, interpretado por Filippo Timi. A trajetória política do jovem Duce (termo italiano que equivale a líder e era usado como referência a Mussolini), no entanto, é contada a reboque de um fato menos conhecido da sua biografia. O foco do filme se confunde com o caso amoroso que ele teve com a modista Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) e resultou num filho. Fulminada por uma paixão que lhe marca pelo resto da vida, Ida se deixa envolver pelos sonhos do então jovem agitador socialista.
Para conquistá-lo, ela não mede esforços amorosos e financeiros, vendendo até o seu estúdio de moda para financiar o planos de Mussolini de abrir um jornal próprio, que serviria para veicular suas ideias políticas e conquistar o apoio do povo (mais um ponto em comum com Berlusconi). Mas logo a fome de poder do Duce se revela, resultando num processo de rejeição que desemboca na vigília constante, na internação de Ida num manicômio e no encaminhamento do filho para adoção.
Enquanto essa trama se desenrola, vemos a transformação da trajetória política do ditador Benito Mussolini. Se na cena inicial ele aparece como um propagador do socialismo que desafia deus a fulminá-lo como prova da inexistência da força divina; ao longo do filme vemos o líder italiano desfazer seus compromissos com a classe trabalhadora e se aliar à igreja católica.
Algo que Bellocchio constrói com maestria ao aliar a estética do futurismo, com grandes atuações de Filippo Timi, Giovanna Mezzorgiorno e do próprio Mussolini (por meio de imagens de arquivo), e uma série de sequências que ocorrem no cinema. Uma bela homenagem à sala escura, em que o diretor afirma que o cinema tem, sim, seu papel político e pode tanto construir mitos perversos feito o Duce como funcionar de redenção, a exemplo da cena em que Ida assiste ao filme O garoto de Charles Chaplin.
Embora a motivação principal de Ida seja motivada por um interesse passional, com ela acreditando no ressurgimento do amor de Mussolini; o filme é carregado de sentido político. A ameaça à liberdade é um tema constante da obra, sendo representada de forma sugestiva através da internação de Ida. Suas tentativas de ter a paternidade do filho reconhecida pelo fascista rendem cenas emblemáticas onde ela procura fazer com que suas cartas cheguem a outras pessoas.
Uma luta que serve como metáfora do sufocamento vivido pela sociedade italiana durante o fascismo e também pode ser aplicado aos dias atuais, como verbaliza o médico Cappelletti ao falar sobre os riscos de enfrentar o regime ditatorial. Ao ponto de, numa passagem, Ida ser tachada de louca por falar a verdade na condição de oposição.
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