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Das sombras para a luz da consagração

Das sombras para a luz da consagração
Thiago Corrêa

Com 15 livros publicados, participação em diversas antologias e responsável direto pela formação de dezenas de, se não escritores, ao menos leitores atentos através de suas oficinas; o escritor pernambucano Raimundo Carrero viu a sua carreira ser coroada no ano em que completa 35 anos de literatura. Por volta das 21h da última segunda-feira, seu romance A minha alma é irmã de deus (2009) foi anunciado como vencedor do 3º Prêmio São Paulo de Literatura, durante cerimônia realizada no Museu da Língua Portuguesa, na capital paulista.

Dessa forma, o mais cobiçado título da literatura brasileira, até porque oferece R$ 200 mil aos ganhadores, permanece entre autores que construíram suas obras em Pernambuco. Chega às mãos de Carrero um ano depois de consagrar o cearense (radicado no Recife) Ronaldo Correia de Brito, vencedor da edição de 2009 com o romance Galiléia. “Como Ronaldo tinha ganho ano passado, eu disse lá (na cerimônia) que esse prêmio era para o Nordeste acabar com essa mania de invadir São Paulo”, brincou Carrero, em entrevista ao Diario, numa alusão ao movimento migratório de artistas que tentam melhor sorte na capital paulista.

A honraria  – também já recebida pelo catarinense Cristovão Tezza, pelo romance O filho eterno em 2008 – não é a única da trajetória persistente de Carrero. A obra do pernambucano já vinha colecionando títulos desde 1986, quando venceu o prêmio Lucilo Varejão (concedido pela Prefeitura do Recife) com O senhor dos sonhos, e o José Condé (do Governo de Pernambuco) com Sombra severa. Nove anos depois, sua obra ganhou projeção nacional com a conquista de Somos pedras que se consomem do prêmio de melhor livro de ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

No ano seguinte, esse mesmo título recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Depois, em 2000, foi a vez de As sombrias ruínas da alma levar o Prêmio Jabuti na categoria de contos e crônicas. Em dezembro do ano passado, o autor conquistou pela segunda vez o Prêmio Machado de Assis com A minha alma é irmã de deus. Um currículo que ainda pode ser ampliado, afinal o romance de 2009 está entre os 54 semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom.

Mas apesar de toda essa experiência, o autor pernambucano confessa que não esperava o título. “Existia a expectativa, mas é sempre uma surpresa. Porque você está numa relação de dez autores que tinha um bom livro de Chico Buarque, um escritor como João Ubaldo Ribeiro e outros bons autores”, disse Carrero. Ao ouvir o seu nome como ganhador do prêmio, o pernambucano mal pôde conter a emoção. “Eu achava que ia manter a frieza, mas me emocionei muito, por pouco não chorei. A gente sabe o que representa o Prêmio São de Literatura”, revelou o escritor.

Livro - A minha alma é irmã de deus segue a linha de experimentação de linguagem explorada por Carrero nos seus últimos livros, onde o autor investiga a maleabilidade da memória a partir de uma narrativa de poucas ações, mas que se desdobra no plano psicológico. O romance conta a história de Camila, uma jovem de classe média que assume outras quatro personalidades, num jogo contraditório sobre a alma humana. Com o livro, Carrero fechou o ciclo Quarteto Áspero, composto por Maçã Agreste (1989) e continuado com Somos pedras que se consomem (1995) e O amor não tem bons sentimentos (2007). Ano passado, o romance ganhou uma versão para o cinema pelas mãos da cineasta Luci Alcântara. O curta está na programação oficial do Festival de Cinema de Gramado, que inicia na próxima sexta-feira.

Estreante - Como sempre acontece no Prêmio São Paulo de Literatura, também foi anunciado, na noite de segunda-feira, o livro vencedor na categoria autor estreante. Neste ano, o escolhido foi o romance Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre. “Trabalhei nesse livro durante seis anos e percebo que ele continua assustadoramente atual, especialmente no tocante ao personagem da mulher que, depois de maltratada, é informada de que vai morrer”, disse à Agência Estado. O jornalista da TV Globo entra no time de apostas do prêmio que já conta com Tatiana Salem Levy (por A chave de casa, em 2008) e o gaúcho Altair Martins (por A parede no escuro, em 2009).

Currículo de prêmios conquistados por Raimundo Carrero

1986
O senhor dos sonhos vence o Prêmio Lucilo Varejão, da Prefeitura do Recife
Sombra Severa vence o Prêmio José Condé, do Governo de Pernambuco
1995
Somos pedras que se consomem vence o APCA na categoria ficção
1996
Somos pedras que se consomem vence o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional
2000
As sombrias ruínas da alma vence o Prêmio Jabuti na categoria contos e crônicas
2009
A minha alma é irmã de deus vence o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional
2010
A minha alma é irmã de deus vence o Prêmio São Paulo de Literatura

* Texto publicado no Diario de Pernambuco, na edição do dia 4 de agosto de 2010


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