Arquivo de 1 agosto, 2010

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Miró: o gol de letra da poesia

Miró: o gol de letra da poesia
Thiago Corrêa

Sorriso de moleque, olhar triste, gestos de pessoa decidida. Prestes a completar 50 anos, o tempo ficou marcado no semblante de José Flávio Cordeiro da Silva. Ex-servente da finada Sudene, ele acabou se consolidando na literatura como Miró. Apesar de ser torcedor do Sport, o poeta ganhou o apelido nas peladas que jogava quando jovem no bairro da Encruzilhada por conta de um jogador do Santa Cruz. Mais do que o apelido, foi graças aos colegas de futebol que Miró foi apresentado à poesia de Carlos Drummond de Andrade. Os versos do poeta mineiro abriram um novo caminho na vida de Miró e, desde então, encarou a palavra (falada e escrita) como uma profissão, um convite para se jogar no “mundo mundo vasto mundo”. Na próxima sexta-feira, Miró comemora seu aniversário reunindo admiradores da sua obra com o lançamento do livro Quase crônico e a première do curta Breve ensaio sobre a brutalidade humana, baseado no seu poema Aconteceu em Fortaleza e dirigido por Wilson Freire. A festa está marcada para as 19h, na sala Joaquim Cardozo, na Fundação Joaquim Nabuco do Derby.

Como surgiu a poesia na sua vida?
Nasci na Encruzilhada, minha vida foi na rua Dom Vital. Nessa época a classe média morava perto dos pobres. O que me despertou para a poesia foi esse convívio com a classe média. Porque eu jogava muita bola, era um craque e me dei bem no meio do pessoal branco. E não foi só pelo futebol, eram pessoas de coração bom: Maurício Silva, Zé Rocha, Alexandre Silva. A poesia me veio como um tiro de gol, o futebol me trouxe a poesia. Eles me mostravam coisas como Drummond. Foi ali, na rua Dom Vital, que nasceu o dom vital, a essência de poder escrever. Eu podia hoje ser um marginal, mas dei para a poesia, para o lado do amor, de contestar o universo.

Quando você se viu como escritor?
O primeiro poema que escrevi que achei bom mesmo foi o Quatro horas e um minutos, quando escrevi ele percebi que estava pronto. Nessa época, o pai de Maurício tinha arrumado um emprego de servente para mim na Sudene. Lá conheci Wilson de Souza e Maria do Carmo Barreto Campelo, que me ajudaram a lançar meu primeiro livro: Quem descobriu o azul anil em 1985.

Depois disso você passou uma temporada em São Paulo. Qual a importância dessa experiência para sua carreira?
Meu sonho era conhecer o Rio de Janeiro para jogar no Flamengo, mas fui para São Paulo com o poeta Milton Aguiar de carro. Quando cheguei lá, eu pirei, entrei num transe literário, cinematográfico que mexeu com minha cabeça. Foi ali que conheci o Brasil, São Paulo me deu uma visão de mundo e vi que queria trabalhar lá. Ali minha literatura cotidiana fluiu mais, ficou mais cosmopolita, aquela cidade tem tudo. São Paulo foi minha conexão para descobrir onde é que eu estou, em que planeta eu vivo, quais as questões da sociedade.

Sua obra é voltada para poesia, mas ela também cumpre uma função de crônica, de relatar o que acontece na rua. Como surge o estalo para fazer você escrever?
Minha literatura é muito sobre o olhar no mundo, meu passeio pelo mundo. Não estudei, não fui à universidade, mas tenho uma sensibilidade aguçada, gosto de conversar com as pessoas que nunca vi. Trago a questão do humano na rua, o cotidiano, as dores do mundo. As vezes surge de uma conversa que escuto na rua. Quando tenho um estalo, escrevo na hora, não demoro três dias para escrever um poema. Entro no transe, tenho a TPM de fazer o poema na hora, meu exercício não permite que eu leve cinco dias para escrever uma coisa. Cida Pedrosa diz que sou meu próprio poema. Não invento, não volto para casa para escrever. Sou um cronista de minicontos, trago a realidade crua para que as pessoas pensem que é ficcional. Poesia, para mim, é perturbação.

Como você percebe que o poema está pronto?
É quando eu gosto. Depois tem o processo de perguntar aos amigos, vou falando para eles e na quinta pessoa já sei se o poema é bom, se o ritmo é bom, se pegou, se não pegou.

Na hora de compor um livro, como se dá a seleção dos poemas?
Não tenho organização quase nenhuma. Primeiro não penso que estou escrevendo um livro. Vou escrevendo os poemas aí uma hora eu digo: pronto, acho que agora dá para fazer um livro. Fecho 20 ou 30 poemas e pronto, porque mais que isso fica cansativo. Quando coloco a ideia de fazer um livro, eu faço. Com papel de pão, em guardanapo, mas eu faço. Tenho uma coisa com meus livros que se demorar muito não faço mais, sou um cara desleixado. Não tenho regras, nunca trabalhei para ninguém depois de 1985. O que tenho é o fazer espontâneo, minha vida é espiritual.

Você se incomoda em ver que sua performance é mais conhecida do que sua poesia?
Não sou só recital, minha poesia é verossímil, ela denuncia, tem valor ali. Agora, quando eu falo, é melhor. Gostava de ler no colégio, a professora me elogiava, porque eu sabia fazer as pausas da leitura. Performance também é literatura, meu corpo e minha oralidade fez com que eu fosse mais conhecido na rua do que meus livros. Tenho a expressão de ir no coração do sujeito, não fico em livrarias.

Na dissertação de mestrado de André Telles do Rosário, ele defende que a seleção de poemas nos seus recitais é de acordo com o público. Isso acontece mesmo?
Depois de um tempo comecei a viver de cachês e passei a ser convidado para recitar meus poemas em escolas. Então eu escolhia alguns poemas que podia falar naquele ambiente, os alunos que pediam para falar o da mulher da bundona ou da que chupou o peito. Em alguns momentos tenho que me segurar, porque tem R$ 500 na jogada e eu só tenho essa função na vida. Depois de 1985, nunca mais tive emprego. Se eu vivo disso, como sou um operário da palavra, então você tem que se adequar. Agora, quando estou num bar, é diferente. Vou sempre com uns cinco poemas no gatilho, chego no lugar, converso com as pessoas para sentir o clima e vejo onde estou pisando. Eu prezo muito em pegar o sujeito e trazer ele para mim, mando um com temática social e depois falo um de peito. A possibilidade do lirismo permite que eu possa falar de outra coisa.

Você está completando 50 anos de vida e 25 de literatura. De 1985 para cá, o que mudou na sua obra?
Percebo mais um engajamento de denunciar, o cuidado de não parecer mais o mesmo. O que me alegra na poesia até hoje é o que está no cotidiano mesmo.

Valeu a pena, Miró?
Não existe melhor maneira de se trabalhar do que o da pulsação do coração. Lembro de uma pessoa que comprou meu livro e disse que antes nunca tinha comprado um livro. O que me alegra é andar na rua e encontrar pessoas, que eu nunca vi, e dizer que mudei a vida deles. Chega gente e diz que, depois de me ver na escola, se descobriu como poeta. Acho que já mudei um pouco as pessoas que não tinham o costume de ler poesia ou mesmo de ler livros. Isso é uma revolução, um orgasmo que não tem camisinha que aguente.

E quanto ao público, você percebe uma aceitação maior aos recitais de poesia?
Sim, há uma diferença enorme. Se tem uma coisa que mudou é que as pessoas estão saindo de casa para assistir poesia. Tem muita gente querendo falar poesia, só que o espaço é pequeno. A prefeitura e o governo deviam apoiar mais, Recife não tem uma feira de livro num domingo do mês. Isso é uma vergonha, não tem um espaço para os poetas dizerem suas poesias. Basta um microfone e duas caixas de som. Recife é uma cidade cruel com os poetas, a prefeitura e a Fundarpe pagam mal. Um cachê de R$ 150 é uma vergonha, muitos poetas estão desistindo por causa disso. Tinham que fazer contratos mais longos, para fazer oficina, se apresentar não sei onde.

Como você vê o momento da poesia oral no Recife?
Em Recife não há uma união entre os poetas, existe amizade. E falta um apoio maior, só aparecem algumas migalhas. Recife não se organiza, não tem o que está acontecendo com os recitais de São Paulo, como o da Cooperifa de Sérgio Vaz, por exemplo. Minha geração teve isso com França, mas perdemos isso. Se tem alguém que está fazendo isso é Cida Pedrosa, se ela tivesse mais tempo ela seria uma Sérgio Vaz. Agora está vindo muita gente jovem boa, tem uns meninos de São José do Egito aí que são muito bons. Os meninos do sertão estão vindo com força.




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