O adeus a Amílcar
Thiago Corrêa
A literatura pernambucana está de luto. Na noite da última quinta-feira, por volta das 22h, o escritor Amílcar Dória Matos foi encontrado morto em sua residência e foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro na tarde de ontem. Aos 72 anos, ele deixa vaga a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras (APL) e uma obra com mais de 12 livros publicados à espera de uma nova avaliação crítica para, quem sabe, conseguir aquilo que ele tanto perseguiu durante a vida: reconhecimento.
A morte aconteceu de forma natural, em 2008 o escritor já havia sido internado para se curar uma tuberculose. Ao se recuperar, ele deu início a um processo de reclusão, confinado em seu apartamento, sem mais ânimo para rever amigos como o escritor Gilvan Lemos e o filósofo Nelson Saldanha nas tardes da sexta-feira no finado restaurante Galo D’Ouro. “Acho que ele já vinha se despedindo há um tempo, cada vez mais ele estava mais recluso. A morte foi uma conclusão”, disse a filha Adriana Dória Matos, que seguiu os passos do pai na carreira jornalística e hoje edita a revista Continente. Além dela, o escritor também deixa outra filha, Andréia.
Apesar de ter se formado em Direito, o gosto de Amílcar pelas letras fez ele optar pelo jornalismo, trabalhando como assessor de imprensa de políticos, ghost writer e editorialista do Diario de Pernambuco. Também foi funcionário público, atuando por mais de 20 anos na antiga Sudene. Em paralelo, ele sempre nutriu o desejo de se consolidar como escritor. Em 1974 veio o primeiro livro: O sexo poupado. Depois vieram títulos como A chama suspensa que, editado pela Ática, teve uma boa repercussão e deu ao autor visibilidade nacional.
Ainda que não tenha alcançado essa mesma projeção, outros títulos de Amílcar permanecem valorizados entre alguns dos melhores escritores de Pernambuco. “Gosto muito do romance A trama da inocência, que tinha uma trama muito forte, de angústia humana. Fiquei muito impressionada pela profundidade psicológica do texto dele e por sua seriedade intelectual”, observou a escritora e professora de Letras da UFPE, Luzilá Gonçalves Ferreira.
Outro que também não esquece a obra de Amílcar é Raimundo Carrero. Nos primórdios das suas oficinas literárias, ele chegou a adotar em sala o romance Cartas do espelho. “Amílcar era um ótimo escritor solitário, com técnicas próprias, personagens fortes, de estilo clássico e detalhista, em certo sentido até perfeccionista”, avaliou Carrero. Um cuidado demonstrado por todos os gêneros que o escritor experimentou: cartas, poemas, explorou o soneto, o conto, romance e chegou a fazer um livro só com diálogos.
Avesso ao mundo dos computadores, Amílcar continuava escrevendo suas histórias à mão, para depois digitá-las na máquina de escrever ou para passá-las para a tela digital. Ultimamente ele vinha se dedicando a livros voltados ao público infantil e lançou alguns títulos pela editora Edificantes, mas nunca mais teve a mesma projeção de A chama suspensa. “Ele era muito idealista e aquilo que ele acabou projetando para sua vida acabou virando um fracasso”, analisou a filha Adriana. “Ele precisa ser relido, tenho esse projeto de reeditar sua obra. O escritor só existe quando é lido”, revelou a filha, na esperança de ter, no plano da ficção, mais alguns momentos com o pai.