Arquivo de julho \31\UTC 2010

31
jul
10

O adeus a Amílcar

O adeus a Amílcar
Thiago Corrêa

A literatura pernambucana está de luto. Na noite da última quinta-feira, por volta das 22h, o escritor Amílcar Dória Matos foi encontrado morto em sua residência e foi enterrado no Cemitério de Santo Amaro na tarde de ontem. Aos 72 anos, ele deixa vaga a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras (APL) e uma obra com mais de 12 livros publicados à espera de uma nova avaliação crítica para, quem sabe, conseguir aquilo que ele tanto perseguiu durante a vida: reconhecimento.

A morte aconteceu de forma natural, em 2008 o escritor já havia sido internado para se curar uma tuberculose. Ao se recuperar, ele deu início a um processo de reclusão, confinado em seu apartamento, sem mais ânimo para rever amigos como o escritor Gilvan Lemos e o filósofo Nelson Saldanha nas tardes da sexta-feira no finado restaurante Galo D’Ouro. “Acho que ele já vinha se despedindo há um tempo, cada vez mais ele estava mais recluso. A morte foi uma conclusão”, disse a filha Adriana Dória Matos, que seguiu os passos do pai na carreira jornalística e hoje edita a revista Continente. Além dela, o escritor também deixa outra filha, Andréia.

Apesar de ter se formado em Direito, o gosto de Amílcar pelas letras fez ele optar pelo jornalismo, trabalhando como assessor de imprensa de políticos, ghost writer e editorialista do Diario de Pernambuco. Também foi funcionário público, atuando por mais de 20 anos na antiga Sudene. Em paralelo, ele sempre nutriu o desejo de se consolidar como escritor. Em 1974 veio o primeiro livro: O sexo poupado. Depois vieram títulos como A chama suspensa que, editado pela Ática, teve uma boa repercussão e deu ao autor visibilidade nacional.

Ainda que não tenha alcançado essa mesma projeção, outros títulos de Amílcar permanecem valorizados entre alguns dos melhores escritores de Pernambuco. “Gosto muito do romance A trama da inocência, que tinha uma trama muito forte, de angústia humana. Fiquei muito impressionada pela profundidade psicológica do texto dele e por sua seriedade intelectual”, observou a escritora e professora de Letras da UFPE, Luzilá Gonçalves Ferreira.

Outro que também não esquece a obra de Amílcar é Raimundo Carrero. Nos primórdios das suas oficinas literárias, ele chegou a adotar em sala o romance Cartas do espelho. “Amílcar era um ótimo escritor solitário, com técnicas próprias, personagens fortes, de estilo clássico e detalhista, em certo sentido até perfeccionista”, avaliou Carrero. Um cuidado demonstrado por todos os gêneros que o escritor experimentou: cartas, poemas, explorou o soneto, o conto, romance e chegou a fazer um livro só com diálogos.

Avesso ao mundo dos computadores, Amílcar continuava escrevendo suas histórias à mão, para depois digitá-las na máquina de escrever ou para passá-las para a tela digital. Ultimamente ele vinha se dedicando a livros voltados ao público infantil e lançou alguns títulos pela editora Edificantes, mas nunca mais teve a mesma projeção de A chama suspensa. “Ele era muito idealista e aquilo que ele acabou projetando para sua vida acabou virando um fracasso”, analisou a filha Adriana. “Ele precisa ser relido, tenho esse projeto de reeditar sua obra. O escritor só existe quando é lido”, revelou a filha, na esperança de ter, no plano da ficção, mais alguns momentos com o pai.

29
jul
10

Fragmentos do Senhor das Sombras

Fragmentos do Senhor das Sombras
Thiago Corrêa

Como um artesão, que acredita mais no suor e na persistência do que na inspiração, o escritor Raimundo Carrero construiu uma das carreiras mais sólidas da literatura brasileira das últimas três décadas. Para marcar o feito, em 2005 o autor iniciou uma série de comemorações que envolveu o documentário O caçador de assombrações, de Clara Angélica, e o relançamento dos seus três primeiros títulos. O ciclo de festividades se encerra com o lançamento da fotobiografia Raimundo Carrero: A framentação do humano, organizada pelo jornalista Marcelo Pereira. O livro tem noite de autógrafos hoje, às 19h, na Livraria da Jaqueira (Rua Antenor Navarro, 138, no bairro da Jaqueira).

A edição tem requintes de luxo, com tamanho A4, papel couchê e belas fotos do autor captadas pelas lentes de Roberta Guimarães. O conteúdo reúne desde impressões sobre Carrero do poeta Fabrício Carpinejar e Marcelino Freire ao conto inédito O paraíso com pão e manteiga; mais relatos, análises e textos promocionais sobre cada uma das 15 obras publicadas por Carrero até então; cronologia e uma Bibliografia crítica, analítica e anotada organizada pelo professor de Letras da UFPE, Anco Márcio Tenório Vieira.

O ouro, no entanto, está no Sísifo Pernambucano (retrospectiva da trajetória do autor escrita por Pereira) e na entrevista de fôlego feita pelo jornalista com o escritor. Complementares, essas partes servem como um acesso ao sombrio labirinto da alma de Carrero e suas estratégias de inserção no campo das letras. Na conversa, ele revela particularidades da sua vida, interesses literários, escolhas estéticas, preocupações religiosas e angústias. A retrospectiva, por outro lado, é construída a partir da repercussão da obra de Carrero na mídia impressa.

A partir das reflexões de nomes importantes como os do escritor Gilvan Lemos e dos críticos Otto Lara Resende e César Leal, fica claro o pleno controle de Carrero sobre como seria construída a sua obra desde a estreia, aos 26 anos. Já na repercussão de A história de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão (1975), novela influenciada pelo Movimento Armorial, é possível perceber as intenções e angústias que marcaram o resto da atormentada trajetória do escritor. De quebra, ao reconstituir a carreira literária do autor de Sombra severa pela imprensa, Pereira acaba relembrando um pouco da história do jornalismo cultural brasileiro.

Apesar disso, o livro apresenta algumas imprecisões que comprometem o valor de documento. Até pelo tempo que durou a sua construção, a edição guarda uma imprecisão quanto ao intervalo de analise da pesquisa. Um exemplo é que, em certos momentos da entrevista, Carrero comenta sobre a boa repercussão de O amor não tem bons sentimentos, mas logo depois diz que vai se dedicar ao livro e, em seguida, reaparece reclamando da demora da publicação do mesmo livro.

Um equívoco que também se evidencia no fato da seção Bibliografia crítica, analítica e anotada de Raimundo Carrero ter sua abrangência registrada entre 1973 e 2005, enquanto a cronologia chega até 2009, ano de lançamento dos livros A preparação do escritor e A minha alma é irmã de deus. Nada que comprometa o competente trabalho de pesquisa e organização de Anco Márcio, contudo o descompasso temporal da edição inevitavelmente torna a fortuna crítica incompleta, defasada do que aconteceu depois de 2005 na carreira do escritor.

11
jul
10

Cuba | Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução

Rappers usam táticas de guerrilha para fazer uma nova revolução
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Dado o histórico de rivalidade entre Cuba e os Estados Unidos, cujos resquícios da Guerra Fria continuam em voga neste pedaço de terra isolado pelo mar caribenho, chega a ser surpreendente perceber que a ilha de Fidel Castro possua uma cena de hip hop. Ainda que o grupo Orishas (natural de Cuba, mas radicado na Europa) tenha alcançado projeção internacional, o ritmo de origem americana não possui a mesma popularidade que a conga, a salsa e o reggaeton. Mas as novas gerações de artistas cubanos têm usado o rap como um escape para denunciarem as privações enfrentadas pela ilha por conta do regime político e o bloqueio comercial americano.

“O hip hop chegou à Cuba há cerca de 20 anos, mas em Santiago ele só veio aparecer uns dez anos atrás”, conta Alain, integrante do trio TNT La Resistencia, grupo originário de Santiago de Cuba que já se apresentou duas vezes no Brasil. “Em Santiago hoje temos uns oito grupos de hip hop. Antes havia mais, muitos pararam para fazer outro tipo de música por conta do dinheiro”, relata o rapper Eskeche, integrante do grupo Partidários, referindo-se aos artistas que optaram pelo reggaeton e misturas de salsa com rap. “Para ganhar dinheiro com música aqui é preciso ter o cartão de profissional, só que para tê-lo é preciso passar por uma verdadeira inquisição”, observa o músico da TNT.

A explicação para o êxodo foge as questões financeiras e entra no campo da política, excluindo os rappers cubanos da programação radiofônica. “Como o hip hop tem essa coisa de protesto, a gente é muito discriminado, sofremos censura e não conseguimos colocar nossas músicas nas rádios. Mas ouvimos rap americano no rádio, é uma contradição”, reclama Alain. “Se o hip hop não consegue entrar nos principais espaços de Cuba, então temos que trabalhar com espetáculos de rua e fazer apresentações na comunidade. É dessa forma que a gente consegue ganhar dinheiro do Governo”, completa o rapper da TNT, cujo projeto Sonido Urbano abre espaço para novos grupos se apresentarem às quartas-feiras.

Se a situação é semelhante a do Brasil, em Cuba esse problema se torna ainda maior por conta das dificuldades de acesso à internet. “É muito caro, não podemos para ficar gastando 8 CUC (peso conversível, equivalente a cerca de R$ 16) por uma hora de acesso. E mesmo assim, o limite de transferência de dados é de 2 megabytes, não dá para colocar músicas no MySpace”, explica o rapper moçambicano Corte Cir, que veio à Cuba estudar biologia e se encaixou na cena rap cubana.

A solução encontrada por eles então é contar com a colaboração de músicos estrangeiros que visitam a ilha. “A gente grava os discos e passa para pessoas de fora colocarem na internet e divulgar nossa música”, revela Corte Cir. “Já fizemos conexão com Moçambique, Angola, Suriname, Portugal e agora Brasil”, enumera Borrash Aka Independiente, integrante do grupo Golpe Seko junto com Yisi K’Liber e o DJ Rey 38.

O porta-voz escolhido pelos rappers santiagueiros desta vez foi Cannibal, da Devotos, que só na tarde da última quinta-feira foi procurado por três artistas locais para transferirem álbuns via pendrive ao seu notebook. Devido a todas as dificuldades enfrentadas por esses músicos, eles recorrem ao espírito de irmandade para continuar fazendo música de protesto. “Logo que cheguei aqui, eles abriram as portas de dois estúdios para mim porque é assim que eles encontram a possibilidade de aprender e conhecer novas formas de se fazer rap”, lembra Corte Cir.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

11
jul
10

Cuba | Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música

Alto José do Pinho e Portuondo: duas periferias ligadas pela música
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Nem as diferenças de idioma nem as 7 horas e meia de viagem entre Recife e Santiago de Cuba foram capazes de distanciar o Alto José do Pinho com a comunidade de Portuondo. Em comum, os dois lugares carregam o peso de serem periferia e possuem artistas que usam a música como um instrumento de transformação social. A semelhança das histórias desses bairros fez o grupo TNT La Resistência se aproximar dos responsáveis pela experiência positiva na comunidade pernambucana.

Se em 2008 os rappers da TNT aproveitaram a passagem pelo Recife para visitar o Alto José do Pinho, na última quinta-feira foi a vez Zé Brown e Cannibal retribuírem a atenção indo a Portuondo. Os dois conheceram onde vivem os artistas santiagueiros, foram apresentados a seus familiares e viram aceitação que o trio de hip hop tem na comunidade ao fazer um show no meio da rua mesmo.

“O que me deixa feliz é ver eles realizarem as coisas. Apesar da precariedade de equipamento, eles são muito esforçados”, observa Zé Brown. “É o meu espelho, porque no início era complicado. A gente não tinha case e precisava ter o maior cuidado do mundo para não estragar os instrumentos no ônibus. Qualquer batidinha lascava tudo”, completa o rapper pernambucano.

Com todas essas identificações, o reencontro não podia deixar de passar pelo campo da música. A exemplo do que ocorreu no Recife, quando a TNT participou de uma faixa gravada pelo DJ Big, o encontro em Cuba também vai render frutos musicais. Na manhã de sexta-feira, os integrantes do grupo cubano se reuniram com Zé Brown, Josildo Sá, Cannibal e DJ Beto no estúdio Egrem (onde foram gravadas cenas do documentário Buena Vista Social Club) para gravarem duas faixas. As músicas vão integrar uma coletânea a ser lançada pela Fundarpe com artistas cubanos e a delegação pernambucana.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

11
jul
10

Cuba | Versos do hip hop quebram silêncio da censura

Versos do hip hop quebram silêncio da censura
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Por mais que muros, placas e outdoors de Santiago de Cuba estampem mensagens enaltecendo o espírito revolucionário, a política é um assunto que tanto pode despertar a verborragia entre os cubanos como é capaz de provocar silêncios quando se propõe um viés crítico em relação ao governo. Mas essa ausência de som tem sido vencida aos poucos pelos versos ritmados de jovens da periferia de Santiago.

Com bases eletrônicas ao fundo, eles vêm se apresentando em palcos alternativos da cidade e mandando suas mensagens para tentar mudar a realidade social em que se encontram. “O mais importante é que a gente não se censure. A partir do momento que a gente libera aquilo que está aqui dentro, as coisas começam a acontecer”, defende o rapper Borrash Aka Independiente.“Como a situação do nosso país está pior, isso acaba se refletindo nas letras”, explica Alain, da TNT La Resitência.

Em termos musicais, uma coisa que chamou a atenção de Zé Brown foi a maneira como eles driblaram a carência por equipamentos. “Aqui eles não têm DJ, colocam um CD com a base eletrônica na mesa de som e mandam ver”, diz o rapper do Alto José do Pinho. Já o moçambicano radicado em Santiago, Corte Cir, percebe que o rap cubano tem suas peculiaridades estéticas. “Existe uma diferença grande, o hip hop cubano é mais cantado. Eles são mais artísticos, cantam e rapeiam ao mesmo tempo”, compara.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

09
jul
10

Cuba | Orgulho da Santería

Orgulho da Santería
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – O quinto dia do Festival do Caribe foi marcado pela cerimônia em homenagem aos cimarrones, equivalente cubano dos nossos quilombolas, na comunidade El Cobre. O local, situado a 22 quilômetros de Santiago de Cuba, abrigou a primeira mina de cobre da América Latina, fazendo uso da exploração de mão-de-obra escrava, e é considerado um dos principais sítios do espírito revolucionário cubano por ter sido nele onde os negros começaram a se rebelar contra a escravidão.

Nesse lugar histórico, todos os anos é celebrado um ritual artístico-religioso em que se fazem oferendas ao orixá Elegua, conhecido no Brasil como Exu. “O interessante é que, para a gente, Exu tem essa mística de ser ligado a coisas ruins, mas aqui não, ele é tratado feito os outros orixás, o primeiro que aparece nas casas. Lá, até o pessoal que faz o ritual tem medo”, compara Guitinho, vocalista do grupo Bongar, que é ligado ao Terreiro de Xambá e vem estudando as práticas religiosas africanas no curso de Ciências Sociais da UFPE.

Ainda que a cerimônia nos dias de hoje já sofra com interferências da lógica do espetáculo para turista ver, com a presença de dezenas de fotógrafos e câmeras filmadoras em plena roda do ritual, a devoção dos cubanos pela santería não se restringe apenas ao terreiro e homenagens como a dos cimarrones. “Lá no Brasil tudo está cada vez mais ligado ao espetáculo, como se fosse uma grande mise en scene. Aqui não, eles vivem mesmo a santería”, observa o Mestre Afonso, que participou do ritual comandando o Maracatu Leão Coroado.

“No dia-a-dia eles se referem aos orixás, as pessoas usam as guias toda hora, em todo canto. Em Pernambuco isso é mais tímido, fica mais dentro do terreiro, até por conta do preconceito que o candomblé ainda sofre por lá”, completa Guitinho. “Essa firmeza deles em cultuar os orixás é muito mais forte por conta da situação de pobreza em que eles vivem. São tantas privações que eles acabam se apegando à religião como uma forma de se proteger”, explica Mestre Afonso.

Já para Beth de Oxum, ligada ao coco de umbigada, as diferenças com o Brasil têm influência no regime político adotado por Cuba. “A gente vem pensando naquela coisa de que país socialista não tem religião e leva uma tapa na cara porque a santería aqui é muito forte. Como a religião católica foi banida, abriu-se espaço para as religiões africanas e fez com que a santería não tivesse os traços cristãos que temos no Brasil”, analisa Beth.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

09
jul
10

Cuba | Dificuldades da produção revelam carências da ilha

Dificuldades da produção revelam carências da ilha
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Num país onde o horário dos voos depende da boa vontade da tripulação de bordo e o acesso à caixa de e-mail é uma conquista, possibilitar a realização de mais de 51 shows, mais dois desfiles e um espetáculo de gala tem sido uma verdadeira odisseia para a equipe de produção da Fundarpe. Os dez profissionais que vieram do Recife têm enfrentado uma série de dificuldades para permitir que os artistas pernambucanos consigam pelo menos o mínimo de infra-estrutura em suas apresentações. Os obstáculos vem desde a carência de recursos materiais até a cultura de improviso que se desenvolveu no Festival do Caribe.

Como a programação dos palcos só possui a marcação do horário de início das atividades e muitas atrações são inseridas de última hora, as bandas de Pernambuco estão condenadas a horas de espera no local dos shows porque simplesmente não sabem quando vão poder subir ao palco. E considerando a maratona de sete apresentações em média de cada atração durante os sete dias de festival, a desorganização acaba gerando desgaste físico. Para contornar o problema, a equipe da Fundarpe até tentou se articular com os organizadores do festival para só levar os artistas na hora de entrar em cena, mas não deu certo.

No último domingo, o grupo Bongar foi aconselhado a chegar uma hora antes na Plaza Ferreiro, onde se apresentaria, porém precisou aguardar três horas nas calçadas para começar a tocar. E o pior, quando finalmente entraram em cena, os integrantes perceberam que os equipamentos de palco não seria o suficiente. “Pedimos 15 microfones e eles disseram que tinham microfones para uma orquestra, mas quando chegamos lá só tinham sete. Não tinha como fazer o show porque era um espaço aberto. Existem dificuldades técnicas que não tem condições de fazer”, disse a produtora do Bongar, Marileide Alves.

Apesar de todas essas dificuldades, o Bongar subiu ao palco e tentou fazer o que podia. “Foi um show de 15 minutos, só que a galera gostou tanto que pediu para a banda tocar mais”, conta a produtora. “Aqui a gente tem que entrar na onda deles, colocar o som mais baixo e fazer com o que tem, porque a situação é precária. Lembra muito o nosso começo, a gente já chegou a tocar usando caixa de som de radiola”, compara Cannibal, vocalista da Devotos que está fazendo participações nos show de Zé Brown.

A carência cubana vai além de equipamentos técnicos, também passa por questões mais básicas como a falta de pregos e garrafas d’água em grande quantidade. “A gente está tendo que adaptar as oficinas, porque aqui eles não têm coisas básicas como massa corrida e acabam usando graxa e azeite. Quando fomos fazer uma ação de grafitagem, descobrimos que, como não existe spray por aqui, eles usam pincel”, relata Luis Eduardo Pinheiro, responsável pelas oficinas. Outro fato que revela as deficiências da sociedade cubana e tem atrapalhado a equipe da Fundarpe é com relação à comunicação. “É um problema porque usar rádio aqui é proibido, então teríamos que comprar celulares para todos da equipe e isso seria inviável”, conta Pinheiro.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

09
jul
10

Cuba | A diversidade cultural da miscigenação

A diversidade cultural da miscigenação
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Depois de ver de perto uma amostra da cultura pernambucana durante o Desfile de la Serpiente na segunda-feira, os cubanos tiveram a oportunidade de entender um pouco mais do significado e da origem da diversidade cultural do estado. Cerca de 100 artistas – entre bailarinos e músicos – passaram pelo palco do Teatro Heredia na noite da última terça-feira para apresentar o espetáculo de gala de Pernambuco.

Com direção de Carlos Carvalho, diretor de Políticas Culturais da Fundarpe, a apresentação tentou contar como se deu o surgimento das manifestações culturais pernambucanas através da história do Brasil, a partir da colonização portuguesa e da miscigenação entre índios, brancos e negros. Para isso, o espetáculo usou as caracterizações do caboclinho para representar a influência indígena, do afoxé e da capoeira para demonstrar as heranças africanas.

Dessa forma, passaram pelo palco do Heredia desde manifestações mais tradicionais como o Cavalo Marinho Boi Pintado de Aliança e o maracatu Leão Coroado a artistas ligados a contemporaneidade como o rapper Zé Brown, da região metropolitana com o coco de xambá da Bongar ao Sertão com o forró de Josildo Sá. Em meio a tudo isso, os bailarinos do grupo Experimental surgiam para fazer intervenções coreográficas e o ator Sergio Gusmao fez duas aparições para contextualizar as atrações através da palavra.

Aliado a uma iluminação que ressaltou a identidade própria de cada atração e a projeção de imagens e vídeos ao fundo do palco, servindo para mostrar a plateia como tudo aquilo ali se encaixa no cotidiano do Recife, o espetáculo ainda teve o diferencial de pegar os artistas num momento de empolgação. Nesse quesito, mais uma vez ninguém superou a Orquestra da Bomba do Hemetério, com o Maestro Forró provocando risos no público ao reger os músicos com os pés, plantando bananeira. E foi com ele, comandando todas as atrações que já haviam passado pelo palco, ao som do frevo, que toda a formalidade de um espetáculo de gala acabou se transformando num grande carnaval em pleno Teatro Heredia, em Santiago de Cuba.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

07
jul
10

Cuba | Pernambuco coloca o bloco na rua em plena Santiago

Pernambuco coloca o bloco na rua em plena Santiago
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – No dia em que Santiago de Cuba sofreu um abalo sísmico de 4.7 graus na escala Richter, a segunda cidade mais importante da ilha de Fidel Castro conheceu mais de perto a cultura pernambucana. Sem a restrição ao acesso à Casa de Pernambuco, aberta somente para convidados da organização do Festival do Caribe, os cubanos tiveram a oportunidade de conferir uma amostra da diversidade cultural do estado nordestino durante o Desfile de la Serpiente.

Em plena segunda-feira, o centro de Santiago de Cuba parou para assistir ao desfile das delegações que participam do Festival do Caribe. Fechando o cortejo (após a participação de Cuba, Argentina, México, Jamaica e Curaçao), sete agremiações pernambucanas aproveitaram o trajeto entre a Plaza de Marte e o Parque Céspedes se apresentaram no corpo-a-corpo à população cubana, num fim de tarde que lembrou e muito o período de carnaval.

A lembrança veio por conta das semelhanças entre as ruas estreitas de Santiago com as de Olinda, como também pela presença de ícones da festa popular pernambucana e pela proximidade com a celebração do carnaval cubano, comemorado a partir do dia 21 de julho. Mas como um país disciplinado pelo regime socialista que ainda traz mensagens pregando a união para superar as dificuldades pintadas em seus muros, a interação não ultrapassou a contemplação.

A população cubana assistiu – ordenadamente concentrada na beira das calçadas, nas janelas e sacadas das casas – o poder dos tambores do Maracatu Leão Coroado, viu com curiosidade os caboclos-de-lança do Maracatu Piaba de Ouro, os passos dos caboclinhos do 7 Flexas, admirou o frevo e as fantasias do bloco O Bonde e reconheceu semelhanças da religiosidade da ilha com os símbolos e o ritmo apresentado pelos afoxés Alafin Oyo e Oya Alaxe.

Até como uma forma de chamar a atenção das várias crianças que se amontoaram pelas calçadas da rua Aguilera, o desfile se encerrou com duas das bandas mais representativas da  música contemporânea pernambucana: a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério com as mungangas do Maestro Forró e o grupo Bongar, que mostrou ser tão enérgico no chão quanto no palco.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.

06
jul
10

Cuba | Frutos cubanos na música pernambucana

Frutos cubanos na música pernambucana
Thiago Corrêa*

SANTIAGO DE CUBA – Conhecido pela sua pluralidade musical, o estado de Pernambuco deve ampliar ainda mais os seus horizontes. A delegação estadual de 162 pessoas que veio participar da 30a. edição do Festival do Caribe tem aproveitado a estada em solo cubano para conhecer sons, ritmos e artistas que dificilmente chegam aos seus ouvidos no Recife. Com a oportunidade de conferir apresentações culturais de paises como México, Haiti, Argentina, Cuba, Curaçao e Jamaica durante uma semana em 28 pontos da cidade de Santiago de Cuba, os artistas pernambucanos tem procurado observar e absorver essa experiência em seus trabalhos autorais.

Quem já está avançando nesse sentido é a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH). Para o seu segundo disco, que deve começar a ser gravado neste segundo semestre, o grupo planeja convidar um DJ cubano para participar do próximo álbum. “Vamos fazer uma faixa que vai condensar todas as músicas do disco e entregar para um DJ fazer um remix”, adianta o Maestro Forró, comandante da orquestra.

Além disso, ele revela que a sonoridade da OPBH não deve ficar imune ao acesso de tantas referências que os integrantes da banda estão tendo acesso. “Festivais como esse são uma oportunidade para colocar em prática a globalização real. O Festival do Caribe está linkado com a proposta da gente, de primeiro conhecer para depois misturar as linguagens. A gente está sempre transformando as coisas e essas viagens são como oportunidades de gerar mais diversidade para a nossa cultura”, explica Forró.

Outro grupo que está se valendo do Festival do Caribe para criar material novo é o grupo Fim de Feira. “Já comecei a compor baseado nessa experiência. Aqui é tudo muito diferente, é como se a gente saísse de uma romance de Gabriel Garcia Marquez”, diz o vocalista Bruno Lins. Mas ele acredita que o mais importante dessa experiência ultrapassa as questões estéticas e atinge o nível da relação das pessoas com a arte. “Não é só uma questão de influência musical, tem uma coisa antropológica mesmo. Porque aqui a música é questão de sobrevivência para os cubanos. Indepente do regime político deles, religião e mesmo das condições dos equipamentos, a gente vê que eles estão se divertindo enquanto tocam”, observa Bruno.

Uma relação que também parece ter efeito entre os outros integrantes da delegação estadual. Reunidos no Hotel Balcón do Caribe, os artistas pernambucanos têm interagido e se mostrado abertos na construção de novas parcerias. Algo que já era possível observar ainda no salão de embarque no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, quando o rapper Zé Brown sacou o pandeiro e começou uma roda de embolada com a participação de músicos da OPBH e Cannibal, da Devotos. “Estamos juntos no mesmo hotel e as coisas vão surgindo, tudo é uma grande brincadeira e a música”, conta o forrozeiro Josildo Sá, que fez participações nas apresentações da Fim de Feira e de Zé Brown.

* O jornalista viajou a convite da Fundarpe.




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